Charles e Claudio, os psicodélicos a favor do amor através das artes cênicas

 

Estou extasiada com o que assisti no Teatro Riachuelo, a redação desse portal já me tinha dito a respeito da grandiosidade do espetáculo “HAIR – DEIXE O SOL ENTRAR“. É lógico que eu já esperava algo ótimo, mas algo de imensa magnitude, não!
A montagem é inovadora e transcende, é isso.

E muito bem-vinda nesse momento, Claudio e Charles acertaram precisamente, afinal ALL WE NEED IS love (AGORA)!

Confesso que na terceira montagem de “Hair”, os dois artistas irão nos colocar em um elevador para chegarmos em outra dimensão para assistir os feitos deles…

Quando entramos no teatro e a primeira cena acontece, uma explosão de luz clareia nossos rostos, os olhos ficam arregalados, foi o que percebi dos expectadores ao meu lado.

Um leve sussurro é ouvido, ficamos boquiabertos a sermos levados a Era de Aquário com os artistas.

A Era de Aquário, um conceito da astrologia que ficou tão intrinsecamente ligado ao movimento hippie dos anos 60 e 70, embora não sejam a mesma coisa. A música “Aquarius”, do filme musical “Hair”, popularizou a ideia e se tornou um hino do movimento hippie, associando o movimento a essa nova era. Enquanto a astrologia define a Era de Aquário como um longo período de tempo, o movimento hippie foi um fenômeno cultural e social específico. A era da Liberdade…

E nessa era de aquário, Beatriz Martins torna-se uma diva, não tenho outra palavra para a profissional, ela assume a voz de um anjo, em mais completa plenitude.

E passamos a entender um pouco da obra. Mas claro que não paramos por aí, há vários movimentos, inclusive do Hare Krishna. Cuja cena,  cá entre nós,  é uma viagem: muitas flores, muito colorido, corpo de dança de extremo bom gosto, eu estava na India, sem sombras de dúvidas.

O movimento Hare Krishna e a cultura hippie tiveram uma relação significativa, especialmente nos anos 60 e 70, nos Estados Unidos. O primeiro, liderado por Srila Prabhupada, atraiu muitos jovens hippies com sua filosofia de amor, paz e devoção a Krishna, oferecendo uma alternativa à contracultura da época.

E o movimento negro?
O movimento negro e o movimento hippie foram contemporâneos, ambos florescendo principalmente na década de 1960. Embora tenham origens e objetivos distintos, esses movimentos sociais compartilharam o contexto histórico da época e, em alguns casos, interagiram ou influenciaram um ao outro.

Portanto, senhores temos aí um espetáculo que conta uma belíssima história da sociedade, posso dizer do mundo, porque através desses movimentos o mundo também despertou, simples assim.

Em relação à abordagem do musical sobre o movimento negro, temos aí dois artistas que chamaram muitíssimo a minha atenção, Drayson Menezzes que trouxe um movimento de corpo black sensacional, sedutor, e muito bem ensaiado, tanto a voz do artista e da atriz Lola Borges, nos levam a um patamar robusto do saber fazer.

O corpo de baile está PERFEITO, e isso deve-se ao Alonso Barros, que acordou e disse para ele mesmo: hoje vou me superar, e superou, é tudo tão perfeito e gostoso de ver, tão dinâmico e rico, incrível, fiquei embriagada com os movimentos dos corpos de três artistas no palco, Caio Nery, Karine Bonifácio e Carol Lippi. Todos com sangue nos olhos e o diabro no quadril, pareciam estar entre a vida e a morte, lutando para continuarem de pé.
Henrique Renesch e Gabriel Querino também foram bem apreciados por mim, são simpáticos na cena e atuam com excelentes expressões faciais.

Não fazer menção ao artista Wagner Lima seria uma covardia. O ator encarna uma gringa, Margaret Mead James, e como um tenor perfeito que na verdade ele é, brinca com a voz, com falsetes que deixam a plateia impactada. Sem contar o grau certo de comicidade.

Quem assina a luz é Vinicius Zampiere, que, tenho a impressão, nasceu fora de um quarto de maternidade, mas diante do Sol ao nascer, só pode, ele é simplesmente exato, mais que isso, sei lá o que escrever… rs

Sobre os figurinos, fico a pensar comigo mesmo as provas, as escolhas das mantas, dos bordados das calças, dos coletes, de cada peça colorida que, ao mesmo tempo, dever estar em total harmonia para o bela que vi. Quantas fotos, quantas lojas visitadas, quantos tecidos escolhidos, quantas costureiras e máquinas, quanta memória em um computador para cada imagem encontrada ou sonhada pelos figurinistas. Claro, Chales e Claudio, que certamente limparam os óculos algumas vezes, vistas cansadas, mas incumbidos de alma em fazer o certo ou talvez o encantamento, porque é assim que ficamos, encantados!
Por que não Claudio Padronagens e Charles Texturas?

O cenário, a melhor pegadinha do ano,  nos enganou. Pois são projeções de mais alto nível, e quando descobrimos isso, ficamos perguntando a nós mesmos: como? De uma cena para a outra, Nicolás Boni, não teve piedade de nos enganar e nos deixar totalmente surpresos.

A orquestra foi abençoada por Apollo, o deus mitológico, a escolha de instrumentos foi perfeita, e tocam com os corpos, tocam com as mãos abençoadas pelo Olimpo.

 

Enredo/Sinopse

A história gira em torno de Claude, um jovem do interior que chega a Nova York e é acolhido por uma tribo de hippies liderada por Berger. Claude se apaixona por Sheila, uma jovem de família rica, e se vê dividido entre o amor e seus princípios pacifistas, desafiados pelo seu recrutamento para a Guerra do Vietnã. O grupo de hippies tenta de todas as formas convencê-lo a não ir para a guerra, questionando a moralidade da guerra e a autoridade do governo.

 

Rodrigo Simas/Berger, poderia me ganhar pelo corpo escultural, mas ele me ganha no primeiro ato negociando suas peças, desenhadas pelos moicanos, os indígenas norte-americanos, isso me levou a ancestralidade do mundo. E depois ele brinca com simpatia e fervor em sua performance.

Thati Lopes, me levou à Rita Lee, um jeito doce e muito louca de ver a vida. Falando em doce, a voz da atriz é meiga e gostosa de ouvir, praticamente como canções de ninar nos leva a outro lugar.

Eduardo Borelli/Claude, lembra o encantador da flauta, aquela história infantil e também à literatura o menino do Dedo Verde, o Tesu, quando na arma põe uma flor no cano dela, que delicadeza de atuação.

Pietro Dal Monte como Wolf nos diverte um bocado, compõe bem o grupo.

Estrela Blanco apresenta uma personagem mais madura e forte.

Giovanna Rangel/Crissy, nos cala com a voz aveludada, em uma das melhores cenas de luz do espetáculo.

Drayson Menezzes, tem muita representatividade, é ele que traz a negritude no texto, excelente atuação de corpo e voz.

Thuany Parente/mãe do Claude é de excelência, em todos os requisitos.

Aos demais, posso dizer que todos pareciam brincar, brincar na neve ou no Sol, brincar de amor, parecia que estavam longe do mundo, sonhando com um amanhã de paz, simplesmente são TODOS SENSACIONAIS!

Ministério da cultura, sou pouco simpática ao que se diz investimento ao que não parte da nossa história, sou bem patriota, no entanto, faço referência a essa remontagem, porque precisamos de amor, e precisamos entender que um presidente estúpido não representa uma nação, a obra chegou no momento certo. Confesso que chorei me questionando sobre o momento que estamos vivendo e foi quando lembrei das multidões de seres humanos em todo o mundo contra a guerra em Gaza. Espetáculos precisam reverberar algum sentimento, reflexão ou ressignificar algo, e posso dizer que é possível chorar e rir com a montagem “Hair” e entender que o amor é muito melhor que guerra.

Guerras não nos levam a absolutamente nada, apenas à destruição em todos os sentidos.

Sei lá, sem nenhuma droga, eu lembrei de Lennon, com a canção “Imagine“, que não foi composta para a guerra do Vietnã, era maior o designo dela, era para o mundo, embora escrita durante a guerra e nos Estados Unidos, e por um compositor que defendeu todos os movimentos mencionados nesse texto, acima de tudo havia o desejo da paz mundial no ex-Beatles.

Claudio e Charles deveriam ter passe livre, afinal nos fazem orgulhar do nosso teatro, como diz a pouco amada e muito reconhecida Barbara Heliodoro no livro “A História do Teatro no Rio de Janeiro”: a dupla é uma garantia de qualidade.

E pergunto: como não concordar?

E penso que já está na hora de ter obras com letreiros com tradução em inglês (somente por ser uma língua universal), para esses gringos assistirem nossos trabalhos e repercutirem a nossa potência, o tal boca a boca lá fora. Para sermos ainda mais soberanos no mundo!

É preciso trazer essa galera para o mundo novamente, Lennon escrevendo “Imagine” e tudo mais, porque mais vale uma viagem psicodélica do que crianças bombardeadas a procura de água no Oriente Médio!

 

Ficha técnica

  • Um espetáculo de Charles Möeller & Claudio Botelho
  • Direção: Charles Möeller
  • Versão Brasileira e Supervisão Musical: Claudio Botelho
  • Direção Musical: Marcelo Castro
  • Coreografia: Alonso Barros
  • Cenografia: Nicolás Boni
  • Figurino: Charles Möeller
  • Desenho de Luz: Vinícius Zampieri
  • Casting: Marcela Altberg
  • Coordenação Artística: Tina Salles
  • Direção de Produção: Bianca Caruso
  • Direção Artística e Produção Geral: Aniela Jordan
  • Direção de Negócios e Marketing: Luiz Calainho
  • Uma superprodução ORIGINALMENTE PRODUZIDO EM NOVA YORK POR MICHAEL BUTLER

 

Serviço

HAIR – Deixe o Sol Entrar

Teatro Riachuelo Rio, Rio de Janeiro
Temporada de 04/07 a 21/09/2025. Quintas e Sextas: 20h, Sábados: 16h e 20h, Domingos: 15h

Ingressos:
https://www.ingresso.com/evento/hair1

Paty Lopes (@arteriaingressos). Foto: Divulgação.

Siga-nos nas redes sociais: @showtimepost

 

 

Author

Dramaturga, com textos contemplados em editais do governo do estado do Rio de Janeiro, Teatro Prudential e literatura no Sesi Firjan/RJ. Autora do texto Maria Bonita e a Peleja com o Sol apresentado na Funarj e Luz e Fogo, no edital da prefeitura para o projeto Paixão de Ler. Contemplada no edital de literatura Sesi Fiesp/Avenida Paulista, onde conta a História de Maria Felipa par Crianças em 2024. Curadora e idealizadora da Exposição Radio Negro em 2022 no MIS - Museu de Imagem e Som, duas passagens pelo Teatro Municipal do Rio de Janeiro, com montagem teatral e de dança. Contemplada com o projeto "A Menina Dança" para o público infantil para o SESC e Funarte (Retomada Cultural/2024). Formadora de plateia e incentivadora cultural da cidade.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *