O mito da Fênix, o fogo e a filosofia de Zenão

A Fênix;. Ilustração ArteCult/ChatGPT

 

O mito da Fênix, o fogo e a filosofia de Zenão

 

“O mundo, o mesmo em todos,

nenhum dos deuses e nenhum dos homens o fez,

mas sempre foi, é e será, fogo sempre vivo,

acendendo segundo a medida e segundo a medida apagando”.

(Heráclito de Éfesos, Fragmento 30[1])

 

Este artigo foi gestado na noite de 20 de junho, solstício de inverno – a noite mais longa para os habitantes do hemisfério sul. É um período de celebração das festas juninas, para os herdeiros da tradição da ancestralidade do fogo, elemento que também marca os rituais e a mitologia de vários povos e culturas ao longo da história. Desde os fenícios[2], com o mito da Fênix, passando pelos gregos, nórdicos, africanos, romanos e os povos originários, o fogo é este elemento primordial da natureza que tem múltiplas funções e significados: aquece, protege, acolhe, reverencia, convida ao devaneio, alimenta e transforma. Para o filósofo Gaston Bachelard[3], “o fogo é bem-estar e respeito. É um deus tutelar e terrível, bom e mau. Pode contradizer-se, por isso é um dos princípios de explicação universal”. (p. 12). E mais adiante, o pensador nos adverte que “o respeito ao fogo é um respeito ensinado, não é um respeito natural”. (p. 16). Não à toa, somos ensinados, desde crianças, a respeitar seus limites. Quantas vezes não ouvimos: ‘não brinque com fogo, pois ele pode queimar’. Era uma interdição imperativa e demarcatória entre a impotência do homem diante do fogo, esse “deus tutelar”, que tudo consome e conflagra.

Desde os mais arcaicos tempos e culturas, o fogo é o elemento central de constituição (princípio) e de (re) generação da vida. Se nos lançarmos a pesquisar, vamos identificar que o fogo permeia e ‘arde’ no cotidiano do homem desde tempos imemoriais.

Por exemplo, escolho começar pelo mito de Prometeu, o deus Titã, filho de Jápeto. O fogo era privilégio dos deuses e Prometeu quis ofertá-lo aos mortais e Zeus não consentiu. No entanto, Prometeu furta uma fagulha do fogo e traz para a terra, para que os mortais possam ‘promover’ a vida, pois sem fogo não há comida cozida, aquecimento e proteção. Aqui destaco o aspecto do fogo como elemento de ligação entre deuses e homens. Neste sentido, para o filósofo Jean-Pierre Vernant[4], “os humanos tornam-se então os únicos, entre todos os animais, a compartilhar com os deuses a posse do fogo. Assim, é ele que os une ao divino elevando-se dos altares onde está aceso em direção ao céu”. (p. 64). O fogo como símbolo de ligação entre deuses e homens.

Temos também o mito da Fênix, que é amplamente explorado em diversos povos e culturas[5]. E como ‘pano de fundo’ recorro aos poetas, esses que são os que conservam e transmitem os saberes e as tradições, como nos lembra Vernant: “É pela voz dos poetas que o mundo dos deuses, em sua distância e sua estranheza, é apresentado aos humanos, em narrativas que põem em cena as potências do além revestindo-as de uma forma familiar, acessível à inteligência”. (p. 15). Neste caso, apresento o filósofo e poeta africano Lucio Cecílio Firmino Lactâncio, nascido em 250 d.C, na Numídia, hoje Argélia. Ele escreveu o poema “Ave Fênix[6], escrito em latim, falando do mito da ave fenícia. E a seguir cito alguns versos:

“Ela então erige para si seja ninho seja sepulcro

Assim perece para que viva: gera-se ela mesma, contudo.

Reúne, em seguida, seivas e essências da rica mata”. (v. 77-79).

“Enquanto isso, seu corpo, destruído pela morte fecunda,

Arde, e o próprio calor produz uma chama

E, ao longo, recebe o fogo proveniente do esplendor eterno:

Queima e, abrasado, se decompõe em cinzas”. (v. 95-98).

“Com essa plumagem, seus ombros e peito harmonioso fulgem;

Com ela, sua cabeça; com ela, o pescoço e dorso brilham.

E a cauda se estende, adornada com o fulvo metal,

Em cujas manchas a púrpura misturada se tinge.

Um arco-íris distingue, de cima a baixo, as penas das asas, como, perfeito, costuma pintar a nuvem em cima ”. (v. 129-134).

“Mas que ave de afortunada sorte e fim,

A quem o próprio deus concedeu nascer de si mesma!”. (v. 161-2).

“Ela própria, é certo, mas não é a mesma: a mesma não é ela própria,

Alcançou a vida eterna pelo benefício da morte”. (v. 169-170).

 

Depois da leitura desses versos selecionados, atrevo-me a alguns breves comentários. Primeiro vemos a ave se alimentando de elementos da natureza (v. 79), de modo simples, natural e sem excessos. Em seguida, a conflagração, o fogo pirotécnico[7] (v.95) como fonte de vida. A ave se retrai, sucumbe e ressurge e mesmo tendo esta característica inata de renascer, não se eleva acima dos outros. Ao contrário: se retrai.

No verso 131 lemos a referência à cor púrpura[8], que era uma especialidade dos fenícios: era extraída a partir de um molusco. A Fenícia foi um centro de produção e amplo comércio deste corante, que era extremamente valorizado por sua cor vibrante e sua durabilidade. A cor foi também símbolo de nobreza, riqueza e poder, usada por diferentes povos antigos.

E nos versos finais do poema temos a marca essencial da ave: a regeneração (v.161) a partir de sua morte (v.170). O mito fenício pode ser identificado num paralelo em outras culturas. Por exemplo no Egito, com o deus mitológico Osíris, que ressuscita dos mortos.

O mito (palavra de origem grega que pode significar uma história contada, narrativa), segundo Vernant “obedece a limitações coletivas bastante estritas”. (p. 25). Ou seja, está circunscrito a uma coletividade que homologa, professa e propaga em ritos e representações figuradas este elemento mitológico. O filósofo indígena Yaguaré Yamã, em seu livro “Nossos mitos[9]”, afirma que “um mito não nasce do nada para simplesmente ser tratado como sem dono”. (p. 9). Por isso o mito, atemporalmente, apresenta-se de modo tão reverencial, despertando curiosidade, respeito e atenção.

E agora, saindo do mito fenício trago o filósofo Zenão, também de origem fenícia, que é o fundador do Estoicismo.

Zenão nasceu em Cítio[10], cidade da ilha de Chipre, em 332 a.C. Era filho de Mnasea, comerciante fenício. Chega a Atenas aos 22 anos e se inicia nos estudos de Filosofia com os princípios da escola dos Cínicos, com Crátes. Desta escola aprende uma filosofia prática, com um modo de vida simples e moderado – nada em excesso, que será um dos traços da escola do Pórtico. Também teve a influência da filosofia socrática e sua ideia central, que é o autoconhecimento. Atenas, naquela época, era a ‘vitrine’ do Mediterrâneo, com diversas escolas, teatros e era o centro onde fervilhava o comércio e o poder político.

Mas mares nada calmos trouxeram Zenão para Atenas. E justo um estrangeiro, de origem fenícia, com toda sua herança cultural vai ser o fundador de uma das escolas de filosofia mais conhecida até nossos tempos. E por esta sua origem, Zenão foi uma figura dissonante daquele status quo. Segundo o historiador Giovani Reale[11], “Zenão não era cidadão ateniense e, como tal, não tinha direito de adquirir um edifício; por este motivo dada as suas aulas debaixo de um pórtico”. (p. 13). O nome da escola vem daí: em grego, a palavra pórtico é stoá (hé stoá) e por isso os alunos do fenício eram chamados aqueles do pórtico ou os estoicos.

E assim temos a fundação do Estoicismo, “a maior escola da era helenística[12]”, segundo Reale (p. 5). Uma escola que, tal como uma chama, acende-se e se apaga continuamente ao longo do tempo – sem perder seu brilhantismo. E sua luz para iluminar nossos dias, tal como uma candeia filosófica. A filosofia estoica é comumente dividida em três partes: a lógica, a física e a ética. Zenão afirmava que o princípio do universo é o FOGO ETERNO.

Sobre o elemento do fogo, que é a ideia central da ontologia de Zenão, que tem influência direta a partir do filósofo Heráclito[13] de Éfeso. E para contextualizar este princípio, recorto e cito três de seus fragmentos:

“O mundo, o mesmo em todos, nenhum dos deuses e nenhum dos homens o fez, mas sempre foi, é e será, fogo sempre vivo, acendendo segundo a medida e segundo a medida apagando”. (FR. 30)

“O raio conduz todas as coisas que são”. (FR. 64)

“O fogo, sobrevindo, há de distinguir e reunir todas as coisas”. (FR. 66)

 

Voltando a Zenão e suas ideias da física (da natureza), para Reale, o ordenamento seria a CAUSA (princípio ativo, Divindade) e em seguida a MATÉRIA (princípio passivo ou todas as criaturas criadas): “Dado que o ´princípio ativo, Deus´, é incindível da matéria, e dado que não há matéria sem forma, Deus está em tudo e Deus é tudo. Deus coincide com o cosmos”. (p. 47). E mais adiante, conclui que “os estoicos podiam identificar o seu Deus-physis-lógos com o fogo artífice, com o heraclitiano ‘raio que tudo governa’ ou também com o pneuma, que é ‘sopro ardente’, ou seja, ar dotado de calor. O fogo, com efeito, é o princípio que tudo transforma e penetra; o quente é o princípio sine qua non de qualquer nascimento, crescimento e em geral, de qualquer forma de vida”. (p. 52).

Em resumo, esse logos-fogo é assim uma conflagração universal (do grego ekpyrosis) e “como os pré-socráticos, os estoicos consideram o mundo gerado e, portanto, corruptível (o que nasce deve em certo ponto morrer)” (p. 67). E é um eterno retorno: porque renascerá após ser conflagrado.

Na física de Zenão, tudo retorna ao fogo primitivo. A matéria está em permanente e contínua transformação. O Cosmos é como um grande animal em chamas, como uma Fênix. E o que podemos apreender a partir destas considerações? Para ajudar na resposta, cito mais dois fragmentos de Heráclito:

“É a presunção que deve ser apagada mais do que incêndio.” (Fr. 43)

“A vida tem um lógos que se aumenta a si mesmo.” (Fr. 115)

 

O filósofo de Éfeso nos lembra que devemos conter a hýbris, a desmedida, o orgulho, o destempero. É o convite para uma vida norteada pela medida, sem excessos, numa trilha de permanente busca pelo autoconhecimento, pelo cuidado de si para que se possa viver em harmonia com a coletividade.

A tradição ancestral do Oriente, a partir do mito da Fênix e do filósofo fenício Zenão nos ensinam ainda que o princípio de explicação da vida é o fogo, esse “deus tutelar” que tudo atrai, conflagra e transforma. A natureza é composta pela imanência da Divindade Lógos-Fogo. E nós, que somos criaturas criadas e que abrigamos e cautelamos esta partícula cósmica da Divindade, o lógos, em nosso tempo, ritualisticamente, devemos (ou deveríamos) ponderar nosso modo de (re) agir consigo e com os outros. Esta ‘fogueira’ de ancestralidade e ensinamentos mitológicos e filosóficos deve (ou deveria) nos lembrar de nossa efemeridade temporal.

E assim tentarmos um exercício filosófico e espiritual para uma prática de comedimento, de resignação, de autoconhecimento e de partilha de afetos (dos bons afetos), que nutre e sustenta nossas relações.

E para fechar, como estamos em época de festas juninas, deixo aqui um trecho da música nordestina de Luiz Gonzaga, Olha pro céu[14]:

“Olha pro céu, meu amor
Vê como ele está lindo
Olha pra aquele balão multicor
Como no céu vai sumindo

Foi numa noite igual a esta
Que tu me deste o coração
O céu estava assim em festa
Porque era noite de São João”

Um convite à pausa, ao devaneio e à celebração da vida e dos bons afetos.

 

 

ZAL

Zalboeno Lins (ZAL). Foto: Divulgação

 

 

 

 

 

 

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[1] Os pensadores originários, Ed. Vozes. Tradução Emanuel Carneiro Leão.

[2] A Fenícia é hoje onde está situado o Líbano. Os fenícios desenvolveram a navegação e há registro de terem conquistado regiões que vão até o sul da Itália.

[3] BACHELARD, Gaston. A psicanálise do fogo. Tradução Paulo Neves. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

[4] VERNANT, Jean-Pierre. Mito e religião na Grécia antiga. Tradução Joana Angélica D’Ávila Melo. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2006.

 

[5] O mito da Fênix é também falado em outros registros, como:

  • No Livro dos Mortos do Egito (é a ave BENU). Havia na cidade de Heliópolis um templo dedicado à ave.
  • O poeta Hesíodo (séc. VI a.C) também fala da ave na sua Teogonia.
  • O historiado Heródoto também fala dela.
  • Outros poetas romanos como Ovídio, no poema Amores e Metamorfoses.

 

[6] O poema da Ave Fênix , em 170 versos, usado aqui é a tradução de Daniel Peluci Carrara e Everton da Silva Natividade, publicado na revista Calíope 15, 2006, Rio de Janeiro, pp 133-143.

 

[7] A raiz etimológica desta palavra vem do substantivo fogo em grego (pyr-).

 

[8] Fenício em grego é pholis, que significa cor púrpura.

[9] YAMA, Yaguaré. Nossos mitos. São Paulo: Editora Pallas, 2024

 

[10] Hoje é a cidade de Lárnaca, na ilha de Chipre.

 

[11] REALE, G. Estoicismo, ceticismo e ecletismo: história da filosofia grega e romana v. VI. Tradução Marcelo Perine. 2ª ed. São Paulo: Edições Loyola, 2015.

 

[12] Período que se inicia com Alexandre, o grande, quando invadiu a Grécia e levou para outros países e regiões os elementos culturais, religiosos e político. Helenismo vem do grego (Grécia em grego é hélenés)

 

[13] Filósofo que viveu no século VI a.C, na cidade de Éfesos, hoje Turquia.

 

[14] Compositores: Jose Fernandes / Luiz Gonzaga do Nascimento

Letra de Olha Pro Céu © Society of Composers, Authors and Music Publishers of Canada (SOCAN)

 

Author

Me chamo Zalboeno Lins Ferreira, mas pode me chamar de Zal.☺️ Sou graduado em Filosofia pela Faculdade de São Bento do RJ. Em seguida concluí o Mestrado em Filosofia Antiga, com Dissertação falando sobre o conceito da morte e vida feliz em Platão, Epicuro e Epicteto. E atualmente faço Doutorado em Filosofia Antiga pela UERJ, com o projeto de pesquisa sobre o conceito da morte e felicidade em Epicuro e Krenak. E nesta pesquisa, vou traduzir as Cartas de Epicuro do grego antigo para o português e anexá-las à Tese. Mais uma contribuição que fica das Cartas epicuristas. Também realizo palestras de temas de Filosofia, tanto para um programa interno da empresa onde trabalho, quanto para pessoas fora da organização. Semanalmente também apresento o Filosofia de Primeira, no Programa De Primeira Categoria da Rádio Itapuama FM (92,7) de Arcoverde (PE). Comento ideias e temas de autores de Filosofia em inserções de 4 a 5 minutos... É uma forma de deixar a Filosofia acessível para mais e mais pessoas, de forma simples, sem descaracterizar a ideia original do pensador. Mas acima de tudo, sou um grande admirador da Filosofia, como meio de nos resgatar do senso comum...☺️ Num direcionamento de uma vida feliz! Uma vida compartilhada! E por fim, como costumo repetir: sigamos em philía!

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