Culturas, Identidades e Escolhas: um rasante nas existências humanas através de algumas de suas festas e tradições – parte 8: Culturas e festas culturais na África “Brasileira”: Angola, Nigéria, Moçambique e Egito

Foto: Carnaval de Luanda | Facebook do Governo de Luanda

Culturas, Identidades e Escolhas: um rasante nas existências humanas através de algumas de suas festas e tradições – parte 8

 Culturas e festas culturais na África “Brasileira”: Angola, Moçambique, Nigéria e Egito 

 

É preciso uma aldeia inteira para criar uma criança.

                                                                                                                                    Ditado africano  (não se sabe, ao certo, de que país, é geral)

 

O Brasil é um país complexo e diverso, com cultura forjada e transformada por outras muitas culturas, de outros muitos povos. Na origem, temos a cultura dos povos originários, que antigamente chamávamos de índios (embora muito ainda assim os chamem). Após o ano de 1.500, a estas culturas, também elas, por sua vez, muito diversificadas pelas várias nações aqui existentes, com a colonização portuguesa, basicamente, nossa cultura misturou-se, em parte, com algumas culturas europeias – também vieram para cá espanhóis e franceses, embora em menor número. Já no império, no século XIX, com o ciclo econômico do café, acorreram para o Brasil outros povos mais, como japoneses, poloneses, ucranianos, alemães e italianos (esses povos, especialmente, se dirigiram para o sul do país), dentre outros em menor número. No século XX, começou certa migração de povos do Oriente Médio, como sírios e libaneses, especialmente para São Paulo e, um pouco menos, para o Rio de Janeiro. Isso fez do brasileiro, um misto étnico-cultural de vários povos da Terra. E, como diz a frase em epígrafe, os sujeitos de um povo não se fazem sozinhos, são forjados, neste caldo multicultural e pela cultura social onde nasceram e com a qual interagem e transformam, no dia a dia.

Mas… espera aí? Não está faltando alguém, digo, alguma(s) etnia(s) neste amalgama cultural, que nosso Movimento Modernista chamou de “antropofagia cultural” (a proposta é que deveríamos “digerir” as culturas estrangeiras, assimilando influências e transformando-as em algo novo e genuinamente brasileiro, como um canibal devorava seus inimigos para absorver suas forças, virtudes, qualidades e princípios). E em que esta pequena digressão inicial se relaciona ao subtítulo desta parte 8 do artigo sobre culturas, identidades e escolhas? A relação está no que falta desta breve narrativa sobre parte da História da cultura brasileira, expressa, em nosso dia a dia, pelas grandes contribuições dos povos africanos, negros que foram escancarada e cruelmente escravizados e para cá forçados a vir. Não é preciso muito pensar para lembrar da feijoada, da umbanda, do carnaval… várias manifestações culturais afro-brasileiras. Para fechar esta introdução, a influência negra no mix de cultura em que vivemos veio, basicamente, de povos de lugares que, já de há décadas, são conhecidos como Angola, Benin, Congo, Gana, Nigéria, Moçambique e Togo. Para não alongar em demasia esta parte, optei por escolher 3 dos países que maior contingente populacional veio deslocado, forçadamente, para o Brasil colonial e imperial. A estes 3 países, adicionei o Egito, pelo fascínio, em todos os aspectos, que a cultura egípcia exerce em todo o mundo, até os dias de hoje. E, claro, o fiz pelo viés das festas, manifestações culturais que foram o foco desta nova sequência aqui, no Portal ArteCult.

Antes, uma pequena digressão, para um rápido esclarecimento sobre o movimento conhecido por “Decolonialidade”. Esta ideia, que enseja, até hoje, projetos e ações, foi e é uma abordagem teórica e prática que visa a desconstrução dos efeitos do colonialismo em diversas áreas com o objetivo de superá-los em importantes área da vida humana, como a busca pelo conhecimento, ou seja, na educação, a busca por novas perspectivas na cultura (para tirar estigmas falsos como “culturas superiores” ou “inferiores”) e a propositura e realização de políticas públicas que visem maior desenvolvimento político e, também, econômico, dos povos que se libertaram do jugo colonial. O Decolonialismo tem, deste modo, o foco, não na centralidade do pensamento ocidental, mas, sem o desprezar, na valorização dos saberes e da  perspectiva de povos e culturas que foram, historicamente, marginalizadas e, assim, construir propostas alternativas para um novo mundo, mais justo e digno. Não vou dissertar, aqui, sobre projetos e propostas decoloniais, mas achei por bem chamar a atenção para sua existência.

 

Angola

 

Angola é um país, de resto, História comum a África, como um todo, e não só, à América e à Ásia, igualmente, forjado na base do conflito entre os autóctones (habitantes locais e originários de uma localidade) e o(s) colonizador(es) que, no caso de Angola e de Moçambique, foi, basicamente, o Império Português. Antes da colonização portuguesa, a partir das Grandes Navegações iniciadas no século XV (indo até mais ou menos o século XVIII), o território onde, desde o século XX é Angola, era habitado, basicamente, pela etnia Bantu. Já no período de lutas pela independência. A disputa se deu entre o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), a Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA) e a União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA) que, antes da independência de Portugal, lutaram juntas, mas após a independência, entre 1975 e 2002, guerrearam entre si, pelo poder em Angola. Esta disputa fez parte das “guerras indiretas”, comuns na Era da Guerra Fria (1945-1992), quando os polos Comunistas, liderado pela ex-União Soviética, e Capitalista, liderado pelos Estados Unidos, disputavam influência não diretamente, dada o potencial de destruição mútua pelo poderia nuclear. No caso em questão, ora estudado, por exemplo, o MPLA (que saiu-se vencedor do conflito) teve o apoio da ex-União Soviética e a UNITA, dos Estados Unidos. Posteriormente, todos os grupos armados se institucionalizaram, abandonando a luta armada. Hoje, felizmente, apesar de lá habitarem várias etnias, como os Ovimbundu, os Kimbundu, e os Bakongo, Angola oferece bem mais do que disputas sanguinárias pelo poder. Vejamos algumas das tradicionais festas deste animado povo africano.

Festas das Frutas em Luanda, Angola | Divulgação

1 – Festas das Frutas – realizadas entre o fim do verão e início do outono; aqueles que da festa participam cantam e dançam para uma lavoura farta na época da colheita.

2 – Festas de Nossa Senhora de Muxima – realizadas no santuário da cidade de Muxima, Município da Quissama, Província de Bengo; são comemorações religiosas, com fator louvor aos deuses.

 3 – Carnaval de Luanda – é um dos eventos culturais mais aguardados do ano, celebrado na capital e em outras cidades angolanas, sempre realizado no mês de fevereiro, com desfiles de blocos carnavalescos, trajes coloridos, música e danças como o “semba”, o “kizomba” e o “kuduro”, em evento parecido com o nosso carnaval. Instrumentos tradicionais, como o ngoma (tambor) e o kissange (lamelofone), acompanham as danças e canções (embora não apenas, no carnaval).

 4 – Festividades de São João – são festas realizadas principalmente no interior de Angola, celebradas em junho e combinam tradições cristãs com práticas culturais antigas dos povos locais (podem ser vistas vários tipos de danças tradicionais, músicas e comidas típicas e fogueiras).

5 – Festas do Mar – ocorrem nas províncias costeiras, como Benguela e Namibe, para celebrar a relação do povo pesqueiro angolano, com o oceano. Há desfiles, competições de pesca e exibições de danças marítimas.

6 – Ngangula (Ritual de Iniciação) – é uma tradição cultural realizada por várias comunidades no leste de Angola, especialmente entre os Chokwe, que marca a transição da juventude para a vida adulta e inclui danças, músicas e cerimônias espirituais.

7Festival Nacional da Cultura (FENACULT) – realizado a cada alguns anos, o FENACULT é um dos maiores festivais de arte e cultura do país; ele reúne artistas, músicos e dançarinos de todas as regiões para celebrar a diversidade cultural de Angola. É uma oportunidade para promover a música tradicional, o artesanato e as línguas locais.

8 – Dia da Independência – 11 de novembro, dia em que Angola se tornou independente do Império Português, em 1975, no bojo das lutas descoloniais e pouco depois, não à toa, da queda do fascista Salazar, em Portugal.

9 – Culto aos Antepassados – como em muitas comunidades e povos, o respeito à ascendência é tradição mantida, com mais ou menos alegria, mas sempre no sentido de reverenciar os mortos.

10 – Cerimônias de Casamento – sem muito o que dizer, por óbvio, são festejos que celebram a união de casais para areprodução da comunidade.

 

Sítios consultados:                                                                                                  

https://angolaexplore.com/cultura-angola/festivais-tradicoes/

https://www.angola-embassy.nl/?page_id=48

 

 

Moçambique

 

As navegações europeias foram essenciais para o processo colonial dos séculos XVIII e XIX, tendo o comércio como objetivo central, que alguns estudiosos afirmam ter sido o início do que conhecemos por Globalização ou Mundialização. Outros pensadores situam o início deste processo nos séculos XI e XII, com o Renascimento Urbano; outros, a partir do século XIX, com o que Lênin chamou de Imperialismo, como uma fase que seria ulterior e superior ao Capitalismo; há argumentos consideráveis para todos esses marcos históricos serem considerados. Moçambique permaneceu no estágio de país colonizado até sua independência, em 1975, liderado por Samora Machel (1933-1986). Depois de terem lutado em nome da liberdade, ficou difícil para os europeus, no pós-II GM, justificarem a manutenção de colônias pelo mundo. A descolonização, deste modo, foi a tônica da 2ª metade do século XX.

A queda do ditador português Antônio de Oliveira Salazar (1889-1970), que governou Portugal com “mão de ferro” de 1932 a 1974, passou à História como a “Revolução dos Cravos”, cuja data comemorativa é 25 de abril de 1974, facilitou a independência de suas colônias, como Angola e Moçambique. Salazar, como o auto-intitulado Generalíssimo Francisco Franco Bahamonde (1892-1975), liderou as forças armadas espanholas durante da Guerra Civil (1936-1939) e depois governou a Espanha, também com “mão de ferro” de 1939 a 1975, foram ditadores nazi-fascistas que sobreviveram no poder, ao final da II GM e lograram tal intento porque, durante o conflito, não se alinharam, oficialmente, ao chamado Eixo, representando pela Alemanha Nazista, pela Itália Fascista e pelo Japão, que apoiava os dois regimes. Esses fatos enfraqueceram os antigos impérios coloniais e facilitou o processo de luta pela independência de países como Moçambique, mas, também repetindo certo padrão, foi seguida por lutas intestinas pelo poder do novo país; no caso de Moçambique, a Guerra Civil moçambicana durou de 1977 a 1992.

 

Imagem: Festival de Marrabenta em Moçambique | Reprodução imgrum

 

1 – Festival Internacional de Cultura – é tido como um dos eventos mais importantes do país, reunindo artistas locais e internacionais em uma celebração da diversidade cultural; o festival tem apresentações de música, dança, teatro e artes plásticas.

 2 – Festival de Marrabenta – a Marrabenta é um dos gêneros musicais mais populares de Moçambique; o festival apresenta shows, workshops e exposições.

 3 – Festival Nacional de Arte – é considerado como uma vitrine para os talentos artísticos locais, reunindo artistas de todo o país em uma mostra de pinturas, esculturas, fotografia e outras formas de arte. O evento também inclui performances ao vivo, palestras e oficinas, proporcionando uma experiência imersiva no mundo da arte moçambicana.

 4 – Festival de Cinema – é considerado um dos eventos mais importantes para a indústria cinematográfica do país, exibindo filmes nacionais e internacionais em diversas categorias. Além das projeções, o festival também inclui debates e workshops sobre a sétima arte.

 5 – Festival de Danças Tradicionais – os festejos são compostos por apresentações de grupos folclóricos de todo o país.

 6 – Festival de Gastronomia – é um festival que  reúne chefs locais e internacionais em uma celebração da culinária moçambicana, com degustações, workshops e concursos gastronômicos.

7 – Festival de Arte Urbana – é um festival com muitos murais, instalações e performances ao vivo; o festival, dizem, transforma as ruas da cidade em uma galeria a céu aberto, trazendo cor e vida para o ambiente urbano.

8 – Festival de Literatura – a literatura moçambicana tem uma longa tradição de contação de histórias e este festival é para para os amantes da leitura e da escrita, além de o ser para todos os adoram contar histórias. Com palestras, mesas-redondas e sessões de autógrafos, o festival reúne escritores, poetas e críticos literários.

9 – Festival de Música Tradicional – o festival possui apresentações de grupos folclóricos e instrumentistas tradicionais; muita dança e cantoria.

10 – Festival de Moda – a moda moçambicana tem conquistado cada vez mais destaque no cenário internacional; há muitos desfiles de moda, exposições de designers e workshops de estilo.

11 – Festival de Artes Cênicas – há muitas peças de teatro, danças contemporâneas e performances de circo, mostrando diferentes formas de contar histórias e expressar sentimentos através das artes cênicas.

 12 – Festival de Teatro – há muitas peças de teatro, monólogos e performances de rua.

 

Sítios consultados:                                                                                                  

https://destinotop.com/glossario/o-que-e-os-principais-eventos-culturais-de-mocambique/?amp=1  http://beta.networkcontacto.com/visaocontacto/Lists/Posts/Post.aspx?ID=1685

 

Nigéria

A Nigéria e outro país africano que foi colonizado pelo Império Britânico, no século XIX, tornando-se independente apenas em 1960, embora tenham permanecido por muito tempo ainda, como país membro da Comunidade Britânica, compondo mais um movimento de libertação do jugo colonizador europeu vigente desde o início das Grandes Navegações até um pouco depois da II Guerra Mundial (1939-1945). Mais um país a passar por sucessivos golpes militares, por uma Guerra Civil, entre 1967-1970, até alcançar relativa estabilidade política já em fins do século XX. Os povos originários do que chamamos por Nigéria viveram sob a Cultura Nok ou Noque, que foi uma civilização da Idade do Ferro que teve seu auge entre 500 a.C. e 200 d.C. (muito conhecido por artefatos como esculturas de terracota), sendo um dos principais reinos e culturas da África Subsaariana. Os principais impérios que sucederam o Império Nok foram o Império de Benin e o Iorubá.  O país também é conhecido pela ação de um grupo armado, tido como terrorista, chamado Boko Haram.

A Nigéria é um país multiétnico e, portanto, igualmente, multicultural, além de ser tolerante com as religiões que seu povo professa, como o cristianismo e o islamismo. Outras de suas características marcantes é ser uma nação com mais de 50 línguas e mais de 250 dialetos e grupos étnicos, sendo os maiores os Haussa-Fulanis, os Igbos, os Iorubás, os Edo. Embora o Inglês seja a língua oficial do país, o Pidgin também é uma língua local bastante comum entre a população, notadamente entre a parte não alfabetizadas. É, também, infelizmente, um dos países mais pobres do mundo, em termos econômicos, mas com cultura muito rica, como algumas de suas festas, abaixo sinalizadas, o demonstram.

 

Eid al Maulud na Nigéria©iStockphoto.com/afby71

 

1 – Eid al Mauludfestival muçulmano realizado em fevereiro, conhecido também como “Mawlid” em que é celebrado o nascimento do “Profeta Maomé”, em 570 d.C. e é um dia tão importante que é considerado como feriado nacional.

 2 – Eid al Fitrioutro festival muçulmano realizado em agosto ou setembro, de acordo com o calendário islâmico anual, é um festejo celebrado no último dia do Ramadã, que é o fim de um período do mês de jejum diurno para os muçulmanos.

3 – Eid al Kabirmais um importante festival muçulmano, também conhecido como Eid al-Adha em outros países muçulmanos; é uma festa que comemora sacrifícios que temos que fazer ao longo da vida, normalmente realizado no final de outubro, varia de acordo com o calendário islâmico e o auge dos festejos é no último dia do Hajj (a peregrinação muçulmana anual a Meca).

 4 – Festival de Pesca de Argungu – festival antigo dos povos locais; é uma festa anual de pesca que dura quatro dias, basicamente realizado, no início de março, no Estado de Kebbi, no noroeste do país, desde 1934. Os pescadores que deste festival participam competem para ver quem pega o maior peixe do Rio Sokoto usando apenas redes tradicionais feitas à mão.

 5 – Páscoa – é um festival tipicamente cristão, também celebrado por lá; seguindo o calendário cristão, a sexta feira santa e o domingo de páscoa são dias muito importantes no calendário dos festejos nigerianos, mas por lá, a tradição é, também, a realização de desfiles com pessoas vestindo trajes tradicionais típicos e coloridos, dançando com muita música, marcadamente percussionada, com vários tambores.

 6 – Festival de Osun – realizado na Floresta Sagrada de Oshogbo, ocorre perto da estação chuvosa; o festejo costuma acontecer na última semana de agosto; é um um festival tribal tradicional do povo Iorubá, realizado em homenagem à deusa do Rio Oxum, com sacerdotes abençoando os participantes, pedindo proteção e oferecendo presentes aos deuses.

7 – Carnaval de Calabar – festa de origem cristã, é um festejo recente, que começou a ser comemorado em 2006, dura um mês, de 1 a 31 de dezembro, todos os anos, e tem uma programação de eventos que inclui dança, música e outros eventos culturais.

 8 – Dia de Natal – mais uma festa de origem cristão, comemorada em 24 e 25 de dezembro, em modelo similiar a como comemoramos aqui, no Brasil, e em vários outros países pelo mundo afora.

 9Festival de Cinema – a partir da década de 1990, a indústria cinematográfica nigeriana, chamada “Nollywood”, emergiu como uma força cultural em rápido crescimento na África, sendo os filmes nigerianos muito populares em todo o país, bem como em outros países africanos.

 10 – Feiras de gastronomia – a culinária nigeriana é rica em carboidratos e com muitos tipos diferentes de sopa; os alimentos são, no geral, bastante apimentados, como a eba (garri), inhame iyan moído e fufu, consumidos especialmente com sopas como quiabo, ogbono, egusi, feijão nigeriano e outras sopas de vegetais feitas de folhas verdes nativas. O inhame é frito em óleo ou amassado para fazer um mingau semelhante ao purê de batata, o iyan amassado. O nigeriano também gosta de consumir muita carne, como de veados e girafas, além de carne seca. Há, ainda, produtos fermentados de palma e mandioca, que são usados ​​para fazer um licor tradicional, além do vinho de palma. Tudo isso e muito mais é objeto de várias feiras de culinária, ao longo do ano todo, por todo o país.

 

 Sítios consultados:                                                                                                          

https://www.fodors.com/news/photos/12-fun-colorful-festivals-you-can-only-experience-in-nigeria

https://www.iexplore.com/articles/travel-guides/africa/nigeria/festivals-and-events

 

Egito

Quando falamos em Egito, as primeiras coisas que nos vêm à mente são múmias, faraós, pirâmides e a esfinge, e estão certos, pensando no Egito Antigo. Bem, talvez alguns pensem, também, nos jacarés do Rio Nilo, o segundo maior e mais extenso rio do mundo, só perdendo para o Rio Solimões, mais conhecido por Rio Amazonas. A civilização imperial que por lá floresceu é das mais antigas do planeta, datando a alguma coisa perto dos 3.500 anos antes da Era Comum Ocidental, também conhecida como Era Cristã. Mais antigo do que este Egito Antigo, ou no mínimo, tão longínquo quanto, só mesmo as civilizações Greco-Romanas, as Mesopotâmicas, a Chinesa e a Japonesa, além, claro, muitas vezes esquecidas, povos Mesoamericanos, como os Toltecas, os Olmecas, os Zapotecas, os Maias, os Astecas e os Incas. Várias tribos lutavam pela hegemonia de então, mas o que hoje conhecemos como Império Egípcio, segundo historiadores, teve início por volta de 3.200 anos, quando o Baixo, o Médio e o Alto Egito (localização dada pela geografia do Rio Nilo) foram unificados pelo Rei Menés. O Egito foi ocupado, historicamente, por diferentes impérios como os Romanos, os Árabes e os Otomanos.

A religião politeísta e com crença em outras vidas, a escrita hieroglífica e a mumificação são traços culturais marcantes desta civilização. Já perto do nascimento de Cristo, a famosa rainha Cleópatra foi a última governante desse império, tendo ele caído sob o domínio Romano, mesmo que ela, estrategicamente, tenha se tornado amante dos dois poderosos romanos, o Imperador Júlio Cesar (assassinado) e o general Marco Antônio (que se matou com a rainha para não serem aprisionados pelo general Otaviano, que ao ganhar a disputa com Marco Antônio, tornou-se o Imperador (Cesar) Augusto. Depois deste período, o Egito ainda seria dominado pelos Persas (hoje, majoritariamente compondo a etnia do Irã), pelos Macedônios (Alexandre, o Grande, discípulo de Aristóteles, era seu líder; Macedônia era a região onde, hoje, localizamos a Grécia, a Bulgária, a Albânia, a Sérvia e o Kosovo, ou seja, a Península Balcânica) e pelos árabes (aqui, já em fase de certa dispersão, do império; foi a decadência final), que deram, digamos assim, a cultura final egípcia, até hoje observada, baseada na língua árabe e no Islã como religião. A independência Egípcia é comemorada em 1922, quando o país deixou de ser um protetorado britânico e foi declarada a independência, propriamente dita, com a coroação do Rei Fuad, mas com muitos laços mantidos, ainda, com o Império Colonial da Inglaterra. Depois, em 1953, o general Mohammed Nagib, proclamou a República e proclamou-se Presidente (algo como uma segunda independência). A cultura egípcia até hoje nos fascina.

Os deuses dos antigos egípcios (dos povos antigos, em geral) eram descritos por ligações com eventos naturais e bastante da formação cultural egípcia é decorrente deste fato. Por exemplo, o nascer do Sol era oDeus Rá emergindo do submundo em seu navio e a Lua era o “Deus Khonsu, contumaz viajante do céu noturno; os figos eram frutas muito apreciadas, vindas da árvore de sicômoro e estas eram sagradas para Hathor, mãe de . Os egípcios gostavam muito de fazer associações (como muitos outros povos da antiguidade): a fertilidade feminina era protegida pela deusa Bes ou Tawaret (uma deusa-hipopótamo) e as casas dos egípcios, eram protegidas por Bastet (uma deusa felina). E há vários outros exemplos. A cultura egípcia, contudo, se podemos assim entendê-la, no geral, não era para o povo, mas para a realeza, tanto que, como é sabido pelos historiadores, os sacerdotes, que interpretavam, pelos sinais da Natureza e por advinhações, não raro, em estado de transe (à base de alucinógenos), serviam aos deuses (o próprio Faraó era um deus encarnado), não serviam, prioritariamente, ao povo. Tanto é assim que as oferendas da população aos deuses eram deixadas do lado de fora dos templos, porque apenas os sacerdotes e a realeza podiam neles entrar para louvar os deuses e ofertar-lhes, diretamente, seus presentes. Muitas das festas que, ainda hoje, são celebradas no Egito vêm das tradições culturais ora reladas. Vejamos algumas delas.

 

Egyptians celebrate Sham El-Nessim | AhramOnline

 

1 – Sham el Naseem – é um antigo festival egípcio, comum a muçulmanos e cristãos, em que há piqueniques espalhados pelo país, com muita música e comidas típicas, como o peixe salgado, ovos coloridos e cebola. O nome significa o “cheiro de primavera” e é comemorado como o início desta estação do ano. Muitas pessoas, as que podem, se dirigem para um jardim chamado Al Qanater Al Khayria para o piquenique e, além da comida, é costume andar à cavalo ou, mais modernamente, de bicicleta.

2 – Moulid Al-Nabi ou 12º dia de Rabea Awaal – o dia 08 de junho é o mais importante feriado muçulmano, quando é comemorado o  nascimento de Muhammad ou, como é mais conhecido entre nós, Maomé, o grande profeta do Islã, que decodificou a palavra de Alah (Deus), expondo-a no Corão em ligação direta com o Anjo Gabriel. Muita comida, em família, muita música, e muita oração, marcam estes festejos.

3 – Eid al Fitr – é um festival de três dias que marca o fim do jejum do Ramadã. O calendário muçulmano é baseado no ciclo lunar e o calendário ocidental é baseado no ciclo solar e, por esta razão, a data dos dias comemorativos oscila por até 11 dias a cada ano.

4 – Ramadã – é o nono mês do calendário islâmico e é importantíssimo para os muçulmanos. Excetuando as pessoas doentes, as que têm de viajar, as idosas, as mães que amamentam e as grávidas, todas as outras pessoas devem jejuar durante o dia durante todo este mês, ou seja, nada comem do nascer ao pôr do Sol, bebendo apenas água. Acredita-se que Maomé recebeu a revelação que o levou a escrever o Corão (Al Corão), direto do Anjo Gabriel, neste período.

5 – Dia 9 de Dhu’l-Hijjah – é o último mês do calendário muçulmano, conhecido como “O Dia de Arafat” e é um dia particularmente significativo para os muçulmanos, porque é o dia principal da peregrinação anual a Meca.

6 – Eid ul-Adha – os muçulmanos comemoram o sacrifício que Ibrahim ou Abraão (patriarca das 3 maiores religiões monoteístas do mundo, o judaísmo, o catolicismo e o islamismo) ia fazer com o seu filho Ismail em sinal de obediência às ordens de Alah (Deus) que, no entanto, na última hora, mandou Ismail substituir o filho por um cordeiro. Este sacrifício é conhecido no Islã como a “Festa do Sacrifício”; festa realizada no que chamam de “10º dia de Dhu’l Hijjah”.

7 – Festival do Nascimento de Jesus Cristo – 7 de janeiro, dia especial para os cristãos coptas do Egito (copta é palavra egípcia que quer dizer “egípcio). Os Coptas constituem um grupo religioso fundado em meados do século I depois de Cristo, tendo por “padrinho” o evangelista São Marcos, mas que, como várias denominações religiosas, se separou da Igreja Católica Apostólica Romana em meados do século 5. O Ano Novo egípcio, contudo, também é comemorado no dia 01 de janeiro.

8 – Dia do Trabalhador – o dia 1 de maio também é comemorado no Egito como o dia do trabalho.

9 – Revolução de 30 de Junho – representa a revolta egípcia de 2013 que destituiu da presidência Mohamed Morsi (1951-2019), engenheiro e então, Presidente do Egito.

 10 – Revolução de 23 de Julho de 1952 – é feriado nacional no Egito neste dia, em que se comemora a Revolução Egípcia de 1952, quando foi derrubado o Rei Faouk(1920-1965) e o país ficou sob a liderança do militar e político Gamal Abdel Nasser (1918-1970), até a sua morte, famoso por seu nacionalismo não alinhado, no período da Guerra Fria, pela tentativa da nacionalização do Canal de Suez e pela oposição ferrenha ao Estado de Israel.

11 – Festa da Libertação do Sinai – festa do dia 25 de abril, feriado militar que comemora o retorno da região da Península do Sinai ao domínio definitivo do egípcio, que perdeu o controle da região, pela 1ª vez, em 1956, com a Crise do Canal de Suez, até 1957, e pela 2ª vez, em 1967, na Guerra dos Seis Dias, até 1979, quando retomou a região com os “Acordos de Camp David”, com a assinatura de Yasser Arafat (pelos palestinos), de Menachem Begin (pelos israelenses) e por Jimmy Carter (pelos Estados Unidos).

 12 – En Nuktah Leylet – mulheres bonitas eram sacrificadas para agradar os deuses e para garantir as férteis  inundações das várzeas, embora já não façam mais sacrifícios, os egípcios modernos continuam a comemorar este dia especial a 17 de Junho, fazendo piqueniques e acampando juntos.

 13 – Wafaa Al Nile – realizada em setembro, esta festa comemora, para os egípcios, o que chamam de “Fidelidade do Nilo”.

 14 – O Festival do Sol em Abu Simbel – festa realizada nos dias 22 de fevereiro e 22 de outubro, comemora um dos locais históricos egípcios mais importantes, Abu Simbel, que foi erguida por Ramsés II, um dos mais poderosos e famosos faraós do Egito Antigo; é um monumento onde se pode ver as esculturas do “Deus Sol” no santuário interior iluminadas por um raio de Sol duas vezes por ano nesses 2 dias, os solstícios (dias mais longos) de verão e inverno (solstício vem do latim “sol sistere”, ou seja, “sol parado”; os dias do ano em que dia e noite são iguais são os dos equinócios da primavera e do outono).

 

Sítios consultados:

 

                                                                                           

Bibliografia sugerida para consulta:

  • CASCUDO, Luís da Câmara (1898-1986). Civilização e Cultura. São Paulo: Global Editora, 2004.
  • TURINO, Célio. Cultura a unir os povos – a Arte do Encontro. São Paulo: Instituto Olga Kos de Inclusão, 2018.

 

 

 

Carlos Fernando Galvão,
Geógrafo, Doutor em Ciências Sociais e Pós Doutor em Geografia Humana

Instagram: @cfgalvao54
profcfgalvao@gmail.com

 

 

 

 

 

Author

Carlos Fernando Gomes Galvão de Queirós é carioca, Bacharel e Licenciado em Geografia (UFF), Especialista em Gestão Escolar (UFJF), Mestre em Ciência da Informação (UFRJ/CNPq), Doutor em Ciências Sociais (UERJ) e Pós Doutor em Geografia Humana (UFF). Autor de mais de 160 artigos, entre textos científicos e jornalísticos, tendo escrito para periódicos como O Globo, Jornal do Brasil, Folha de São Paulo e Le Monde Diplomatique Brasil, também foi colaborador do Portal Acadêmico da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp) entre 2015 e 2018. Atualmente, escreve com alguma regularidade no Portal ArteCult. É autor, igualmente, de 14 livros.

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