GUERREIROS DO SOL: Melhor que melaço, manteiga de garrafa e baião de dois…

 

“Guerreiros do Sol” é um presente, com um elenco de primeira linha e um texto que mais parece uma feitiçaria: nos leva à redenção.
Na verdade, quando comecei a assistir, não consegui parar e foi um dia inteiro ligada na Globoplay — não poderia ser diferente. Comecei a falar sobre o trabalho com alguns amigos, e eles começaram a assistir e me respondiam de imediato: caramba, que coisa boa de assistir! E as tias da hidroginástica? Todas ligadas! Fiz referência a elas porque são da época das grandes novelas; portanto, sabem muito bem do que falam. Se uma novela tem o aval dessas mocinhas de idade avançada, é porque está tudo bem — melhor que isso, está tudo ótimo!

Fiquei tão ligada que reconheci alguns artistas do teatro, como Pedro Di Carvalho — artista de altíssimo nível do cenário teatral carioca — assim como Alexandre Paz, do Teatro Oficina, de São Paulo. Por aí, podemos entender qual foi o foco dessa produção audiovisual. Não reconheci nenhum influencer, mas sim artistas que guardam histórias, trazem de suas trajetórias profissionais experiências de cada trabalho executado — e exatamente por isso temos uma trama muitíssimo bem realizada.

Isadora Cruz, Thomás Aquino, Irandhir Santos, Alexandre Nero, Alinne Moraes, José de Abreu, Cláudio Jaborandy, Kaysar Dadour, Daniel de Oliveira, Luiz Carlos Vasconcelos, Ítalo Martins, Otávio Muller, Nathalia Dill, Alice Carvalho e muitos outros — é possível se deliciar e alcançar a satisfação diante da tela.

Os roteiristas George Moura, Sergio Goldenberg, Cláudia Tajes, Mariana Mesquita, Ana Flávia Marques, Dione Carlos e Marcos Barbosa estão de parabéns. Confesso que os atravessamentos da história principal são ricos e chamativos, prendem nossa atenção — como é o caso dos núcleos com Nathalia Dill e Irandhir Santos, Alinne Moraes e Alice Carvalho, entre outros.

Interessante a influência do romance dos eternos Maria Bonita (Maria de Déia) e Lampião (Virgulino Ferreira). A história tem sua identidade marcada pela contemporaneidade, e isso também ficou gostoso — uma linguagem mais acessível ao grande público, que muitas vezes não compreende o tempo dos personagens.

A abertura da novela é um escândalo — claro que tinha que emanar do paraibano Zé Ramalho. Ao lado, a interpretação da prima Elba Ramalho nos faz entrar no programa preparados, como se a caatinga entrasse em nós. “Cavalos do Cão” é uma canção que nos leva à história dessa terra, desse chão Brasil. Lembra um xaxado gostoso — parece ter sido composta em 1981.

Corriam os anos trinta
No nordeste brasileiro
Algumas sociedades lutavam pelo dinheiro
Que vendiam pelas terras
Coronéis em pés-de-guerra
Beatos e cangaceiros

O texto pertence a George Moura e Sergio Goldenberg, que trazem palavras que nos levam ao cangaço, mas também a uma candura tão fresca — tipo “tão doce quanto arroz-doce”. Que coisa linda, vinda do pernambucano George, seis vezes indicado ao Emmy Internacional.

A junção de George e Sergio é um casamento lindíssimo, assinado por uma caneta Montblanc (digo isso pelo valor, mas podia ser Bic, como foi a dos meus pais — que deu em poesia) e abençoado pelo Papa João Paulo, porque dificilmente acontecerá novamente. Pelos trabalhos de Sergio, a notoriedade dele é visível: enxerga o povo como ele é — uma peculiaridade belíssima.

Daniel de Oliveira nos faz odiá-lo com muita força, e Zé conquista nosso coração, apresentando um personagem que tenta evoluir para manter o seu amor. Nero, o ator do ano — sinto informar — também atua com verdade. Mas é impossível apagar o tal de Thomás Aquino: ele é surpreendente. Ele nos engole com os olhos e com a voz. Vida longa para Aquino! Não tenho dúvidas de que, quando for para a TV aberta, será o motivo de muitos suspiros pelo Brasil afora…

Já a mocinha Isadora Cruz traz o que um dia pode ter sido Maria Gomes — moça jovem, inquieta, mas doce. Ou o que as pessoas acham? Que ela nasceu a durona Maria Bonita? Existem questões sociais que desmontam pessoas ou, muitas vezes, montam pessoas — seres humanos melhores ou piores. Sim, existem mudanças segundo o atravessamento do ser.

Sou muitíssimo fã de Maria Bonita — é dose para leão não aprender a ler e a escrever por entenderem que isso seria uma forma de uma menina escrever cartas para um rapaz. Confesso que eu teria feito o mesmo que ela: não morreria aos poucos, vendo o dia vir e ir…
Eu já estava entre os espinhos da caatinga havia muito tempo!

A personagem foi bem criada, com planejamento adequado às mudanças do tempo — se bem que casamento por interesse já acontecia naquela época. Ou seja, mais um ponto para Maria Bonita! Ela casou-se com um pobre sapateiro, primo dela, que batia na coitada. Ela cansou e meteu o pé para a casa do pai — eu faria o mesmo! A história já apresenta outro casamento ou enredo, que ficou excelente.

As gravações foram realizadas nos Estúdios Globo, no Rio de Janeiro, e em locações no Nordeste — mais especificamente, em cidades próximas a Piranhas e Delmiro Gouveia, em Alagoas, e Canudos e Paulo Afonso, na Bahia — lugares que Lampião conheceu muito bem.

E vamos fechar esse texto com palmas para os figurinistas de Guerreiros do Sol, que são extraordinários! Antônio Medeiros e Cao Albuquerque mergulharam fundo, voltaram no tempo como deveria ser.

Além deles, Roosevelt Fernandes, um artesão paraibano, também teve participação na confecção dos figurinos, trazendo a identidade nordestina para a produção. A equipe de caracterização, liderada por Valéria Toth, também contribuiu com o visual dos personagens, utilizando maquiagem e outros recursos para criar a atmosfera do cangaço, incluindo o uso de óleo e poeira para dar um aspecto mais realista.

Nomes que não podem ser esquecidos por entenderem de Brasil — por entenderem como fomos formados.

Penso que, diante de um Congresso tão podre, trazer essa história de revolta do povo nos traz um respiro…

 

 

 

Paty Lopes (@arteriaingressos). Foto: Divulgação.

 

 

Author

Dramaturga, com textos contemplados em editais do governo do estado do Rio de Janeiro, Teatro Prudential e literatura no Sesi Firjan/RJ. Autora do texto Maria Bonita e a Peleja com o Sol apresentado na Funarj e Luz e Fogo, no edital da prefeitura para o projeto Paixão de Ler. Contemplada no edital de literatura Sesi Fiesp/Avenida Paulista, onde conta a História de Maria Felipa par Crianças em 2024. Curadora e idealizadora da Exposição Radio Negro em 2022 no MIS - Museu de Imagem e Som, duas passagens pelo Teatro Municipal do Rio de Janeiro, com montagem teatral e de dança. Contemplada com o projeto "A Menina Dança" para o público infantil para o SESC e Funarte (Retomada Cultural/2024). Formadora de plateia e incentivadora cultural da cidade.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *