A BALEIA: O espetáculo tem 100 minutos?

Foto de Nil Caniné / Divulgação

Pergunto aos fazedores de teatro se realmente a obra tem 100 minutos, porque passou num piscar de olhos, tanto é a excelência do que está sendo apresentado no palco do Teatro Adolpho Bloch.

“A Baleia” inicia com referência a duas das cinquenta melhores obras da literatura mundial: Moby Dick e O Grande Gatsby, segundo o livro 50 clássicos que não podem faltar na sua biblioteca, de Jane Gleeson‑White (crítica literária australiana), que inclusive menciona Clarice, Machado e o nosso querido Rosa. Viva!

Mas se você pensa que irá assistir a uma obra onde vai conhecer a literatura universal, engana-se: o que vemos é uma montagem que traz a humanidade — ou, podemos dizer, uma série de disfunções que emana de nós, seres humanos. Afinal,

“O teatro é uma das formas de expressão de nós mesmos, tem acompanhado nossa história desde tempos remotos e desempenha um papel importante na sociedade, influenciando a cultura, a formação pessoal e o bem‑estar. Ele permite a exploração de diferentes perspectivas, o entendimento de diversas realidades e a reflexão sobre questões cruciais da vida”…

Abordar um tema sobre uma pessoa com obesidade, ora com poesia, ora sem ela, não é tarefa fácil. Mas quem disse que é impossível? O personagem, embora se afogue, é poético e otimista — muito mais otimista que Candido, de Voltaire.

José de Abreu, Luisa Thiré, EduardoSperoni em A Baleia – Foto de Nil Caniné / Divulgação

Digo mais: abordar de forma sutil as compulsões alimentares e desejos sexuais de uma pessoa gorda exige um olhar delicado e gentil, para não ofender — principalmente hoje, com tanta falta de cordialidade nas redes sociais. E traduzir que obesidade não é sinônimo de saúde, como fizeram os profissionais das artes cênicas neste caso, apenas nos leva a aplaudir ainda mais A Baleia.

A dramaturgia é dinâmica e nos deixa inquietos, desejosos de saber os desdobramentos da história contada no palco — esse pulo do gato pertence somente àqueles que têm competência de sobra.

A trilha sonora é do querido Puppin, que parece flutuar nas nuvens quando cria. Ele sempre faz isso — sabe brincar com os textos, trazendo cadências surreais para o teatro. Parabéns, querido!

A iluminação casa-se com a música, o texto e os artistas que entram e saem do palco — essa foi assinada por Quindere, um homem com vasta experiência profissional.

Já o cenário foi pensado em sintonia com a história: traz verdades e minúcias relevantes — como, por exemplo, um sofá sustentado por blocos, devido ao peso excessivo; caixas que lembram fast food; garrafas de refrigerante, símbolo de consumo frenético que leva ao sobrepeso perigoso.

Quanto ao figurino, foi criado com muito bom senso — nada extravagante. Uma vez ouvi de um artista que ele “entrava no personagem” quando vestia o figurino, mas aqui, os atores não contam com esse amuleto — como me ensinou o premiado figurinista Wanderley Gomes. A indumentária tem tons elegantes, ou seja, é sóbria e foi criada com mãos que não hesitam quando falamos de elegância e contemporaneidade. Claro que a construção do protagonista exige técnica bem pesquisada, com gelo para que o artista não morra de calor.

José de Abreu e Gabriela Freire em A Baleia – Foto de Nil Caniné / Divulgação

E o diretor? Ele é quem nos faz ser engolidos pela arte. Soube trabalhar com beleza e afeto — algo tão essencial para os dias atuais. Poxa vida, o diretor me fez entender a importância de obras como essa estarem em cartaz. Ofereceu ao Ministério da Cultura uma peça que nos permite enxergar a beleza de um ser humano, independentemente da sua estética — ensinando ao público como o preconceito pode ser bobo e ocultar o que é belo. A ele, a coroa de louros dos gregos. Eduardo Speroni, meu louvor é seu!

Vamos falar dos artistas? Pois são eles que merecem nossa total reverência: nos fazem acreditar, emocionar e viver catarse. São fios condutores robustos e de ouro.

Gabriela Freire e Eduardo Speroni, filha e “irmão” — jovens e qualificados para este projeto. Confesso que, inicialmente, Eduardo me irritou — achei clichê. Mas, à medida que as cenas passaram, entendi sua postura comedida — tão comum por aí. Quando uma cena exige mais dele, ele conquista por inteiro.

Gabriela Freire é a filha — rebelde com ou sem causa, que parece viver disfunção familiar. Confesso que tive vontade de subir no palco e dar uns tapinhas nela! Ou seja, a jovem sabe pesquisar sua personagem; ambos os artistas mergulharam nas águas límpidas.

Alice Borges é a esposa alcoólatra — um dos fatores da disfunção na vida da filha. Apesar de atriz convidada, Alice imprime sentimentos ao espetáculo. Todos os personagens mostram que, mesmo diante das intempéries, há algo bom. Ela chega dona da cena, simples, sofisticada — sem inventar moda. Dona do equilíbrio.

Luisa Thiré é a enfermeira, amiga do protagonista e irmã de seu grande amor. O que dizer? Ela é talentosa, expressiva, carismática, vibrante, intensa, versátil, dinâmica, performática, cativante, apaixonada e divertida. Precisa de mais adjetivos?

José de Abreu e Luisa Thiré em A Baleia – Foto de Nil Caniné / Divulgação

E o Zé?

O personagem Zé vem carregado de almofadas e pouca movimentação — e, paradoxalmente, essa imobilidade se torna movimento significativo em cena. Mas vamos à história dele: um homem que perdeu o amor após um sermão na igreja do pai. A depressão o dominou, ele deixou de se alimentar, o parceiro dele foi embora e ele “definhou”. O sermão era sobre Jonas e a baleia, do Velho Testamento. Jonas não obedeceu e foi engolido pela baleia por alguns dias. Entendi que, por ser gay, o personagem sentiu que também iria parar dentro da baleia — “uma tentativa de cura gay?”, suponho.

Assim como Pinóquio e Gepeto no desenho da Disney — e como aquele remador no Chile um dia desses — a baleia devolveu o artista. Acho que não gostou do petisco.

Diante do caos na vida de Alan, parceiro de Zé, ele se entregou à compulsão alimentar. Embora o personagem tivesse todos os motivos para projetar pessimismo, ele tinha uma forma bela de ver o outro — sempre atento a sensações além das palavras, além dos sentimentos que habitavam o texto. Algo tão sensível: enxergar o pedido silencioso de socorro do outro.

Zé é um artista nato — evidenciado por suas expressões faciais e entonações certeiras no texto. Falta-me palavras para expressar tudo que queria dizer, então caiba aqui meu: OBRIGADA, ZÉ. Sua atuação é magnética e transforma seu personagem num ser repleto de sentimentos benéficos e afeto, mesmo diante do bullying dos mais próximos.

Quem convive com alguém obeso — meu caso — sabe que não há fragilidade nessa obra. Que ela possa transformar vidas: isso desejo. Porque é muito difícil conviver com o medo de perder alguém que admiramos e amamos — é meu caso também.

Dedico esta crítica ao meu amado, Rafael C. — gostaria que ele soubesse que estou aqui para uma caminhada, uma visita com mais verde à massas (minha dieta ruim), para refrigerante zero que não suporto, para umas voltas de bike por aí, para que ele tenha vida longa. Quero que ele saiba que estou aqui para ele, assim como ele sempre está para mim quando mais preciso. A delicadeza do tratamento que ele me dá — fruto de sua educação e inteligência — me presenteou com o que tenho de mais importante na vida (segredo), e quero que ele viva para o meu sempre!

A Baleia no RJ! A história, originalmente escrita como peça por Samuel Hunter, emocionou o mundo em 2022 com sua adaptação para o cinema — que rendeu o Oscar de Melhor Ator. Protagonizada por Brendan Fraser (de A Múmia), a trama acompanha Charlie, um professor que vive isolado e enfrenta obesidade grave e conflitos familiares profundos.

Segue o link da entrevista com a doutora Priscilla Gil, que auxiliou o artista Zé de Abreu na construção do personagem. A entrevista esclarece muitas dúvidas. Cissa Guimarães conduz a entrevista no programa Sem Censura, premiado este ano:

https://www.youtube.com/watch?v=XhiBKbA7hNo

Nós, da ArteCult, agradecemos à assessoria do Teatro Adolpho Bloch e à Niemeyer, que sempre se mostra gentil conosco — ressaltando a querida Juliana. Segue nossa alegria por esse enlace a favor da cultura.

 

FICHA TÉCNICA

  • José de Abreu em A BALEIA
  • Texto: Samuel Hunter
  • Tradução e Direção: Luís Artur Nunes
  • Elenco: Luisa Thiré, Gabriela Freire e Eduardo Speroni
  • Participação especial: Alice Borges
  • Coordenação Artística: Felipe Heráclito Lima
  • Cenário: Bia Junqueira
  • Figurino: Carlos Alberto Nunes
  • Iluminação: Maneco Quinderé
  • Trilha Sonora: Federico Puppi
  • Visagismo: Mona Magalhaes
  • Preparação Corporal: Jacyan Castilho
  • Preparação Vocal: Jane Celeste
  • Assistente de Direção: Claudio Benevenga
  • Assistente de Cenografia: Victor Aragão
  • Assistente de Figurino: Arlete Hammond Rua
  • Desenho Gráfico: Cadão
  • Fotografia: Ale Catan
  • Mídia Social: Lab Cultural
  • Assessoria de Comunicação: Vanessa Cardoso | Factoria Comunicação
  • Assessoria de Imprensa: Daniella Cavalcanti
  • Direção de Produção: Alessandra Reis
  • Coordenação de Produção: Wesley Cardozo
  • Produção Executiva: Cristina Leite
  • Lei de Incentivo: Natália Simonete
  • Produtores Associados: Alessandra Reis, Felipe Heráclito Lima

 

SERVIÇO

A BALEIA

  • Teatro Adolpho Bloch (Rua do Russel, 804 – Glória)
  • Informações: (21) 3553-3557
  • Temporada: de 06 de junho a 20 de julho
  • Horário : quinta a sábado, às 20h / domingo, às 18h
  • Ingressos: de R$ 25,00 a R$ 160,00
  • Bilheteria: terça a sábado, das 12h às 20h / domingos e feriados: 12h às 19h
  • Indicação etária: 14 anos
  • Duração: 1h40
  • Capacidade: 359 lugares
  • @teatroadolphobloch

 

 

 

 

Paty Lopes (@arteriaingressos). Foto: Divulgação.

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Author

Dramaturga, com textos contemplados em editais do governo do estado do Rio de Janeiro, Teatro Prudential e literatura no Sesi Firjan/RJ. Autora do texto Maria Bonita e a Peleja com o Sol apresentado na Funarj e Luz e Fogo, no edital da prefeitura para o projeto Paixão de Ler. Contemplada no edital de literatura Sesi Fiesp/Avenida Paulista, onde conta a História de Maria Felipa par Crianças em 2024. Curadora e idealizadora da Exposição Radio Negro em 2022 no MIS - Museu de Imagem e Som, duas passagens pelo Teatro Municipal do Rio de Janeiro, com montagem teatral e de dança. Contemplada com o projeto "A Menina Dança" para o público infantil para o SESC e Funarte (Retomada Cultural/2024). Formadora de plateia e incentivadora cultural da cidade.

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