O Brasil está esperando uma vaga para entrar na UTI

Gostaria de fazer uma pergunta a todas as pessoas que estão neste exato momento nas unidades de tratamento intensivo do Brasil, nos poucos leitos existentes. Onde vocês estavam ontem? Por favor, não me levem a mal. Lamento imensamente aquilo que vocês estejam passando, mas estou à procura de uma informação.

Na última vez que escrevi algo de teor político, antes da última eleição presidencial, o escritório do ódio me atacou. Não foi agradável. Então decidi não falar mais de política, principalmente depois dos resultados democráticos que tivemos. Contudo, é difícil ficar calado vendo tudo o que está acontecendo por aí. Incomoda-me ver o Brasil assim, à deriva, sem máscara, a partir de um ponto de vista de quem mora na Suíça.

Enfim, vamos de novo à minha pergunta: onde vocês estavam ontem? Numa praia lotada? Num bar com amigos e desconhecidos? Numa igreja abarrotada de crentes? Fazendo compras num shopping cheio de consumistas? Ou usando máscaras e se protegendo? Se sim, se vocês estavam usando máscaras e se protegendo, lamento ainda mais imaginar o que vocês estejam passando depois de terem feito tudo para não serem contaminados. Que loucura o momento em que estamos vivendo! Mas se vocês se encaixam num dos outros casos – a tal informação importante que estou à procura – me digam uma coisa: vocês mudaram de opinião sobre o vírus? Acham que finalmente não tomaram cuidado suficiente? Acham que finalmente o vírus deve ser respeitado por todos e que há pessoas que estão divulgando falsas notícias sobre a pandemia? Acredito que a gente se questione muito quando se vê diante da morte.

Pra já, ninguém precisa se identificar. Não estou aqui pra jogar na cara de ninguém tipo: “te avisei”, mas o grande lance que me fez começar este texto foi querer saber até aonde pode ir um fanatismo? Ou o que é necessário para fazer com que uma pessoa reconheça a estupidez que tem sido divulgada por alguns? Se é que vocês mudaram de aviso.

E se vocês, de sobra, ainda puderem me responder outra pergunta, ainda melhor. Vocês, que votaram no Bolsonaro no primeiro turno em 2018, ainda votariam no Bolsonaro hoje só para não terem o Lula ou o PT no poder? Com toda essa história do Lula livre, gostaria também de saber se teríamos de novo 54 milhões de votos no Bolsonaro. Em quem vocês votariam hoje? De novo no atual presidente? Ou, afinal, no próprio Lula, depois de tudo que tem acontecido? Ou, ainda, em um dos outros tantos candidatos presentes (Ciro, Amoedo etc), como você que votou apenas para tirar o PT do poder em 2018 deveria ter feito 3 anos atrás?

Sabem, eu também mudei muito em 3 anos. Sei que a Amazônia está queimando, que ainda não descobriram quem matou Marielle, que tem vendedor de chocolate comprando mansões de seis milhões de reais e que o julgamento das rachadinhas vai terminar em pizza (normal nesse país), mas juro que aprendi a me estressar menos com o tempo. A meditação me tem ajudado. Se o Bolsonaro e os seus filhos ganharem de novo nas próximas eleições, provável, paciência. Eu sou muito pequeno para fazer alguma diferença em toda essa história de imediatismo, de falta de leitura, de valores visuais e de idolatrar torturadores. Culpa da televisão, opção das pessoas, vai saber. O que eu sei é que também não sou perfeito e que o que eu tenho mesmo de tentar é corrigir os meus erros, não os erros dos outros, mesmo sabendo que, infelizmente, enquanto isso, o Brasil vai continuar aí, na porta de uma UTI, à espera de uma vaga para receber os tratamentos adequados.

Espero que não seja muito tarde.

 

ANDRÉ CARRETONI

 

 

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Nascido no Rio de Janeiro, em 11 de janeiro de 1971, André Carretoni cedo se apaixona pelas artes. Autodidata, aprende música, desenho, faz cursos de teatro e de cinema até que, aos 27 anos, graças aos seus conhecimentos de informática, dá uma reviravolta em sua vida e parte do Brasil, à procura de novas experiências. Vive por seis anos em Lisboa, faz o Caminho Português de Santiago de Compostela e inscreve-se em um curso de pintura em Florença, onde escreve “Piedade Moderna” e conhece Jannick, que se tornará sua esposa. Vive por dois anos em Lausanne. Escreve “Mais Alto que o Fundo do Mar”, envia contos e crônicas para os sites Tertúlia e Bonjour Brasil e frequenta o Laboratório de Escritura Criativa à Distância do Instituto Camões. Depois de quatro anos em Paris, no encalce da Geração Perdida, instala-se em Nice e encontra nova fonte de inspiração. Nasce seu filho, Tiziano Carretoni. Publica seu livro “Mais Alto que o Fundo do Mar” em francês (“Plus Haut que le fond de la Mer”), escreve “TELMAH, A Tragédia do Desencontro” e participa da oficina literária da escritora Adriana Lisboa e do masterclass do escritor Bernard Werber. Publica "TELMAH, A Tragédia do Desencontro". É eleito Acadêmico Imortal da Academia Brasileira de Letras/Suíça, cadeira número 4. Em 2021, é convidado a participar do site ArteCult. Segue escrevendo.

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