Projeto ALEATÓRIOS: Evento literário na Baixada Fluminense promove o gênero conto

 

Em 2019, os professores e escritores Jonatan Magella e Thiago Kuerques criaram o projeto Aleatórios em Nova Iguaçu. O foco é ler e produzir contos. O sucesso foi tão grande que uma coletânea com textos de 17 participantes da temporada de 2019 foi lançada. Para quem se interessar, a obra pode ser adquirida com Jonatan Magella (@jonatan_magella).

O próximo encontro desses apaixonados por contos está marcado está marcado para o dia 17/03. Sobre questões literárias em geral e, claro, sobre o Aleatórios também, o ArteCult conversou com Jonatan Magella.

Confira a entrevista:

Jonatan Magella

ArteCult: Por que decidiu criar o Aleatórios?

Jonatan Magella: Eu estava cansado de eventos onde se falava DE Literatura. Eu queria um espaço para falar A Literatura. Tipo um sarau. Mas um pouco diferente. Porque temos muitos saraus de poesia na Baixada Fluminense. Mas nós que trabalhamos a prosa sempre nos sentimos meio órfãos ali. Os organizadores costumam dizer: tem que ler um conto pequenininho, senão dispersa a atenção. Como assim? Um bom conto escraviza a atenção de qualquer leitor honesto.

AC: Fale, de forma detalhada, como acontecem os encontros.

JM: Nós nos sentamos em roda para ler contos escritos por nós mesmos. Mas sem saber o autor, pois os contos não têm assinatura. Colhemos aleatoriamente um dos textos depositados na pasta e, um por um, escutamos as leituras. No fim das narrações – imagine, duas horas de tensão e atenção plenas – relaxamos comentando os textos, votando nos melhores da noite e, a parte mais divertida, tentando adivinhar as autorias. Mas, atenção: não é um encontro só de escritores. Nós temos vários participantes que vão apenas para ler os contos. São os membros mais decisivos pro jogo: por vezes, através da fluidez e do ritmo, conseguem melhorar um conto medíocre ou tornar os bons melhores ainda. Já apareceram até pessoas que não escreviam, nem liam: só sentavam para ouvir – mas os ouvintes são mais raros. Tanto no Aleatórios, como na vida contemporânea.

AC: Na sua opinião, eventos como o Aleatórios ajudam a desenvolver a carreira de alguém que deseja ser escritor?

JM: Sim. Te dou um exemplo. Uma participante, por duas edições, não levou textos e nem quis ler: ela era uma das raras ouvintes. Em sua terceira visita ao Aleatórios, sobrou um texto na mesa de autoria desconhecida, era um estilo diferente. Daí ela levantou o dedo. É meu, ela disse. E ficou feliz, porque o texto foi comentado e votado. O detalhe é que aquele foi o primeiro texto literário que ela tinha escrito na vida. O Aleatórios é uma espécie de oficina de escrita onde todos são mestres e alunos ao mesmo tempo. No caso de quem já escreve, é a chance de testar sua produção. Toda a crítica oriunda do Aleatórios é sincera: como ninguém sabe o autor, os comentários são feitos apenas pela qualidade do conto. Portanto, sem chances de bajulações ou implicâncias. Não importa se você tem vinte livros ou nenhum: só reparamos no texto.

AC: Como tem sido a receptividade ao evento?

JM: No último encontro, tivemos quase 60 pessoas. 60 pessoas reservaram uma noite do mês para ouvir contos. Só posso concluir que fomos bem-sucedidos. Eu acho que existe uma paixão pelo evento: o Aleatórios nos faz voltar ao passado, quando nossos ancestrais se reuniam ao redor da fogueira, sob a luz da lua, para narrar histórias. A diferença é que nos reunimos sob a luz fluorescente da Biblioteca Cial Brito, em Nova Iguaçu.

AC: Na sua opinião, quais as características de um bom conto?

JM: As pessoas acham que o conto está abaixo do romance porque é menor. É menor em laudas. Mas não é menor em potência. Não pode ser. E, nesse sentido, torna-se enorme: a gente ingere algumas palavras que explodem dentro da gente. O conto tem que explodir dentro da gente. E essa explosão pode ser para destruir o que não serve mais ou para iniciar uma construção arrojada

 

AC: Como a Literatura entrou na sua vida? Fale um pouco de sua trajetória como escritor.

JM: Inesperadamente, como ocorre com quase todo mundo que escreve. Meu pai estava em outra de suas viagens, eu senti saudade, peguei sua pasta de couro sobre o guarda-roupa e descobri seus cadernos de poesias. Eu tinha 5 ou 6 anos e aprendi a ler assim. (Essa foi minha única leitura até os 19 anos.) Depois, aos dezoito, apaixonado como só se pode ser nessa idade, criei um blogspot e descobri que podia me expressar pros amigos mais próximos. Aos 21, comecei a escrever contos, bati na porta de um site de Duque de Caxias, ganhei uma coluna e descobri que estavam me lendo por gente que eu não conhecia. E fui descobrindo que dava pra publicar um livro, que dava pra ganhar concurso literário, que dava pra receber convites pra publicação, que cinema e teatro também necessitam de autores, e a coisa vai acontecendo. Mas sinto que tô no início

AC: No Brasil de hoje, vale a pena ser escritor?

JM: Isso não é um critério pra mim. É o seguinte: se eu tirar a Literatura da minha vida, sobra pouca coisa. Ou nada. Ficcionalizar minhas memórias e vivências é o que dá sentido à existência. Ficcionalizar as experiências alheias é a minha maneira predileta de me relacionar com o outro. Se um dia eu puder pagar as contas com isso, ok. Se não, beleza. Continuo dando aulas de História e sigo escrevendo por teimosia.

AC: Questão importante para qualquer autor é a conquista de leitores. No seu caso, como você faz?

JM: O Aleatórios serve também para isso. Para que os escritores se conheçam e se apaixonem uns pelos outros. Porque a gente conhecia as capas dos livros, os títulos, os pseudônimos… mas a gente não tinha intimidade literária. Descobri que gosto muito da escrita do Jota Marujo, um dos nossos contistas. E deve ter alguém que descobriu a minha literatura e curtiu. Porque vendi alguns livros daí pra frente. Antes disso, em 2018, fundei a Revista Breves, que está num hiato agora, e criei uma mostra online de contos pelo e-mail. Visito bibliotecas comunitárias e escolas. Realizei oficinas de microcontos e de escrita criativa no SESC e na SEMED. Quando viajo, deixo um livro em espaços de leitura. Vou às feiras quando recebo convites. Estou sempre à disposição. Só não perco tempo fazendo marketing diário. Quanto a isso, sou irredutível. Não gasto o tempo, que eu poderia estar escrevendo ou reescrevendo, simulando acontecimentos. O Zuckerberg não me paga pra eu criar conteúdo. Inclusive, por quase dois anos, fiquei sem redes sociais. Elas me atrapalham. Escrever é concentração. E se é pra me drogar, prefiro café. Depois, percebi que estava sendo radical. Então reativei o Instagram. Mas só publico quando ocorre algo relevante. Minha plataforma preferida ainda é o boca a boca. O átomo ainda supera o bit. Se não tem tanto alcance, tem mais profundidade.

AC: Em 2018, você publicou Vidas Irrisórias. Em 2019, foi a vez de Desculpe o transtorno. Fale dessas obras.

JM: Em 2017 eu publiquei uma noveleta independente chamada Tempo severo. Financei a obra, como de praxe. Daí recebi o convite da Luva editora pra publicar uma obra com eles. Tinha um projeto chamado Incubadora de sonhos, que visava a publicar dois livros de maneira tradicional, e o Vidas irrisórias foi um dos selecionados. O livro foi publicado em 2018. São catorze contos que escrevi entre os 20 e os 25 anos. Tenho grande carinho por eles, embora hoje a minha escrita tenha ido pra outro lugar. Paralelamente a isso, fui selecionado pro Núcleo SESI de dramaturgia. Eram 15 autores, cada um produzindo uma dramaturgia final após um ano de estudos sob a coordenação de Diogo Liberano.

Três textos seriam selecionados para publicação com a editora Cobogó, e, felizmente, a minha dramaturgia Desculpe o transtorno entrou nessa.

Tenho mais de uma dezena de contos publicados em revistas e seleções, dentre as quais Itaú cultural, Prêmio VIP, Revista Maringá e MOTUS da Unipampa. Esses contos avulsos, creio, podem dar em alguma coisa no futuro.

 

 

 

 

CESAR MANZOLILLO

SERVIÇO:

Aleatórios (Primeiro encontro de 2020)

  • Onde: Biblioteca Cial Brito, dentro da Casa de Cultura Ney Alberto, também conhecida como Casa de Cultura de Nova Iguaçu
  • Quando: 17/03, às 19:00
  • Entrada: Gratuita

 

 

 

 

 

 

 

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Author

César Manzolillo
Carioca, licenciado em Letras (Português – Literaturas) pela UFRJ, mestre e doutor em Língua Portuguesa pela mesma instituição, com pós-doutorado em Língua Portuguesa pela USP. Participante de quatorze antologias literárias. Autor do livro de contos A angústia e outros presságios funestos (2017). Professor de oficinas de Escrita Criativa. Revisor de textos.

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