Objetos falam

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Porta pó de arroz da vovó

 

Um espelho. Uma régua de engenheiro. Um anel com uma pedrinha faltando que só cabe no mindinho. Um porta pó de arroz. Um pote de doce.

Podemos encontrar vários desses objetos em feiras de antiguidades e velharias. Quinquilharia para muitos; porém, quando esse garimpo é feito dentro de casa, os objetos vêm com histórias que estão no nosso sangue. O passado nos chega pela oralidade – minha mãe me conta o que escutou dos pais.

Nas cartas, descubro que a minha vovózinha – que fazia o melhor arroz branco tingido de vermelho do mundo! – era uma menina travessa. Isso dito por sua avó que tinha uma certa predileção pela neta Ilda.

E este espelho, mãe, de quem era? Da Mila, minha avó. ( E enquanto eu me olhava, ainda pensava no quanto da Mila aquele espelho ainda refletia…) Da Mila, filha. Mãe de sua avó.

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Se meu espelho falasse…

Mãe, conta de novo a história da sua avó, mãe de minha avó?

 

Mila nasceu em 1889 e, nas suas palavras, “andou de tílburi e viu o homem pisar na Lua”. Como era comum em sua época, casou-se com 17 anos; casou-se com o Belo Tenente! O casal morou no Rio de Janeiro, em Salvador e até em Corumbá onde, na época, só se chagava de barco e tinha gente que nunca tinha visto um espelho.

Também era costume, na época, o homem ter amantes, mas não marido de Mila. Belo Tenente teve amante e virou ex-marido. Ele, sem acreditar na separação, a ameaçava, dizendo: Vou te dar uma surra de rebenque caso apareça no cartório. Ela de pronto respondeu dia e hora que estaria lá. Não teve chicote, cavalo, muito menos um tenente que a fizesse se sentir acovardada. Minha avó foi filha de pais separados por volta de 1917, uma época em que o desquite ainda nem existia.

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Pote de doce com gosto de infância…

Mila foi uma das precursoras da emancipação feminina pelas bandas de cá. Olhando para aquele espelho podemos ver toda essa história com riqueza de detalhes. Ele não é lindo?!

E como alguém pode dizer que os objetos não falam? Falam, claro que falam.

Contam histórias sensacionais. Podem ser, inclusive, narradores com senso crítico. Esse é o caso do liquidificador do André Klotzel. Essa história não é da minha família, mas bem que poderia ser. Uma senhora descobre a traição do marido e, na troca de hélice, o liquidificador ganha consciência! A conexão de um fato com o outro só o filme pode explicar.

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Cartaz do Filme “Reflexões de um Liquidificador”

Na verdade, o Selton Mello, no papel de liquidificador que é o narrador da história. Com sensibilidade apurda, ele filosofa: “Servimos quando estamos bons, somos trocados quando a máquina estraga.” Quem tiver assinatura do canal da NET Telecine vale conferir o que chamam de nonsense, mas que, para mim, faz todo o sentido. “Reflexões de um Liquidificador”, de André Klotzel, com Selton Mello, Ana Lúcia Torre e Fabíula Nascimento.

Quais são os objetos que falam na sua casa?

 

 

Reflexões de um liquidificador – trailer

Está no Telecine – para quem é assinante
http://telecine.globo.com/filmes/reflexoes-de-um-liquidificador/

 

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Author

Claudia Ebert
Jornalista e prioritariamente um bicho de televisão. Adoro cinema e tenho queda forte por documentários. Minha vida profissional já pairou na GloboNews, Globosat e por produtoras que faziam programas para a Globosat. Falo pouco de mim, mas escuto histórias - as interessantes! -, e prometo contá-las aqui.