Um compositor de encontros

ricardo camisa

Com a camisa que ganhou de presente de Lucia Coelho

 

Ricardo Brito é um artista que joga nas onze, como se costuma dizer. Além de compositor, produtor, apresentador de rádio e empreendedor, já escreveu um livro de poesias e, agora, se aventura como diretor de audiovisual.

Mas é com a música que ele tem um relacionamento sério. Ela faz parte da sua vida desde pequeno, por influência da mãe musicista. Mas só investiu na sua vocação de letrista depois de formado em Economia e trabalhando como executivo de multinacional.

Largou tudo e foi atrás do sonho de viver de música. E de cinema. De arte, como um todo.

 

 

Por que escolheu trabalhar com música?

A música começou na minha vida quando eu era muito jovem. Sou de uma família de musicistas, minha mãe e minha avó eram concertistas, pianistas. E eu meio que fui autodidata. Aliás, essa coisa de autodidata é balela. A gente aprende olhando os outros fazerem e a gente vai tentando fazer também. E assim, acabei aprendendo piano e violão. Com 13 anos, eu já fazia música pra participar de festival estudantil. Minha mãe me achava um cara de pau, porque eu me apresentava, cantava e ganhava.

Mais velho, eu acabei me formando em Economia e me especializando em Marketing, e comecei a trabalhar nessa área em multinacionais. Mas a música sempre me acompanhava de longe… E, um belo dia, eu fui assistir ao show do MPB4 e, no intervalo, o músico Ruy Faria veio ao palco e tocou a música Pois é, pra quê?, em homenagem ao Sidney Miller. Aquilo me emocionou tanto que eu saí de lá com a música na cabeça e, dois dias depois, comprei um violão, tirei a música e não parei mais de tocar e nem de compor. A música entrou na minha vida para ficar.

Acabei abrindo uma produtora e um estúdio de gravação com Fernando Carvalho em Ipanema. Fizemos mais de 40 músicas juntos. Produzimos CDs de alguns artistas, minhas músicas foram gravadas, tentei transformar aquilo em um grande negócio. Mas o momento era de crise na indústria fonográfica e eu, sem experiência de gestão, acabei me ferrando. Pra minha sorte, vários artistas mais conhecidos começaram a gostar das minhas letras e me convidar pra parcerias. E hoje, eu tenho mais de 200 músicas, e mais de 40 já foram gravadas.

 

Como surgiu o projeto Cantoras da Lapa?

O Alceu Maia, um músico consagrado do samba, foi um parceiro fundamental, me ajudou a reunir as cantoras da Lapa, em 2007. Foi numa época em que a Lapa, esse bairro boêmio carioca, estava passando por uma revitalização. E várias casas foram reformadas e abriram como casas de samba e de choro. E foi enorme a quantidade de mulheres cantoras maravilhosas que surgiu: Teresa Cristina, Ana Costa, Aninha Portal, Telma Tavares, Márcia Lima, Elisa Addor, Verônica Ferriani, Dorina…

Eu as convidei para cantar minhas músicas e todas aceitaram, menos a Teresa que, na época, estava lançando um CD e a gravadora não deixou. Mas mesmo assim, foi muito legal! É um trabalho do qual me orgulho muito!

 

cantoras da lapa

As cantoras da Lapa

Link Cantoras da Lapa –  O longe não existe, com Elisa Addor

https://www.youtube.com/watch?v=aLMC3epZyZ0

 

E o programa Encontros nasceu desse trabalho?

Não, esse projeto teve outro caminho. Em 2010, eu já era um compositor mais conhecido, e tive a ideia de fazer um blog para mostrar minhas composições, fazer propaganda mesmo. Eu convidava alguns parceiros para conversar sobre a música que a gente tinha feito juntos e a colocava pra tocar. E assim surgiu o programa Encontros.

Um dia, conversando com Moacyr Luz sobre isso, ele se ofereceu para falar do CD Batucando que estava lançando. E eu topei, claro! Acabou saindo um programa de mais de uma hora. Falamos da história do Moacyr, a história de cada parceria – com Ivan Lins, Zeca Pagodinho, e ele cantou todas as músicas do CD. E bombou! Chegou a travar o blog, de tanta gente que quis ouvir o programa.  Depois, consegui fazer o mesmo com a Sueli Costa, e foi outro sucesso. E as pessoas começaram a dizer que esse era um programa muito legal e que tinha que ir pra rádio.

Ricardo com Moacyr Luz

Ricardo com o cantor e compositor Moacyr Luz

Logo depois, num evento, eu conheci a Eliana Caruso, presidente da Rádio Roquette Pinto. Mostrei o programa para ela, que adorou e, no dia 1º de dezembro, o programa Encontros estreou na rádio pública. E já são mais de cinco anos! Eu comecei a convidar outros compositores como Serginho Natureza,  Paulo César Pinheiro, e arranjadores, como Cristovão Bastos, Wagner Tiso, Eduardo Lages e também cantores como Zeca Baleiro, Paulinho Moska… e todo mundo ia.

Outros cantores começaram a cantar minhas músicas. O programa foi mesmo uma vitrine para o meu trabalho. No meio de 2013, eu convidei a cantora Marianna Leporace para apresentar comigo. E o programa ganhou um brilho enorme! Tanto que, em 2014, ele ficou entre os 5 melhores programas de rádio do Rio, com o Prêmio Escola de Rádio. Foi uma grata surpresa e um grande reconhecimento.

 

 

Charge do programa Com Ricardo Brito e Mariana Leporace

Charge do programa com Ricardo Brito e Marianna Leporace

Link do programa Encontros no rádio: 

http://www.fm94.rj.gov.br/index.php/controladorprograma/detalharPrograma

Link do blog Encontros:

http://encontrosrb.blogspot.com.br/

 

E por que você resolveu fazer o documentário sobre Lucia Coelho?

Conheci a Lucia como professora de teatro do Colégio Bennet, quando eu tinha uns 13, 14 anos. Eu tocava nas peças que ela montava. Depois, eu cresci e segui meu caminho e ela o dela. Quando eu era do marketing institucional da Coca-Cola, criei um projeto de teatro infanto-juvenil, e pedi uma lista de nomes de pessoas de referência do meio. E veio a Lucia Coelho, claro. Nos reencontramos, trabalhamos juntos nesse projeto e ficamos muito amigos. Mesmo depois do fim do projeto, eu já mergulhado no mundo da música, ela estava sempre por perto, me ajudando a montar shows, me orientando nos roteiros e na concepção, sempre perto.

Eu já tinha escrito dois roteiros para cinema, mas nunca os produzi. E sempre tive essa vontade. Há oito anos, eu fiz um concurso e ingressei numa produtora pública de TV, a MultiRio, onde me tornei produtor executivo e aprendi mais sobre esse universo do audiovisual. E também conheci ali profissionais de gabarito com os quais trabalho até hoje.

Um dia, eu fui convidar a Lucia para ir a um show, mas ela ia viajar. Mas me deu uma camisa especial para eu usar no evento. E eu usei. Pra você ver o tamanho do nosso carinho… Esse show virou um DVD, e quando fui levar um de presente para ela, eu a encontrei muito triste, porque naquele ano de 2014, ela não tinha conseguido patrocínio do governo para desenvolver seus projetos. Uma tremenda injustiça, uma artista de 79 anos, com mais de 40 deles dedicados ao teatro para crianças, lutando pela sobrevivência ainda…

Eu então me ofereci para fazer um filme sobre a vida e o trabalho dela. Mas, com uma condição: que ela visse o roteiro, opinasse e depois assinasse um documento prometendo não se meter mais. Porque a Lucia dava muito palpite. Era de enlouquecer! (risos)

cartaz lucia

Lucia e sua paixão pelo teatro de bonecos

Chamada do filme: https://www.youtube.com/watch?v=GqbHnrCBa9Q

 

E ela topou essas “condições”?

Ela topou. Fizemos juntos um planejamento rigoroso de gravação e de edição, pois eu juntei uma equipe de profissionais que embarcou comigo na amizade, sem cobrar. Ela me ajudou a marcar as entrevistas com ex-alunos como Daniel Dantas e Zezé Polessa e eu gravei tudo.

E, surpreendentemente, pouco mais de um mês depois que gravei o depoimento dela, ela veio a falecer, em outubro. E isso foi um baque muito forte. Primeiro, pela perda repentina. Depois, porque eu ia aproveitar a animação e a energia dela para lançar o documentário Lucia Coelho, Sempre Navegando.

Mas, como sempre, ela deu um jeito de cuidar desse filho artista aqui. Eu querendo dar esse presente pra ela, e acho que foi ela que acabou me dando a honra de fazer esse curta-metragem, que se tornou um tributo ao seu trabalho para o teatro brasileiro e à pessoa maravilhosa que ela foi.

Em fevereiro de 2015, comecei a colocar o documentário em festivais, e ganhamos o prêmio de melhor curta-metragem do Festival de Cabo Frio. E isso foi muito significativo. Agora, o Canal Brasil vai exibir o filme e, no dia 17 de junho, vamos fazer uma exibição pública no Teatro Tablado para a classe artística, para celebrar o aniversário de Lucia Coelho, que faria 81 anos no dia 14.

 

E quais são os próximos planos? São na área de cinema ou da música?

Misturei as duas coisas. Meu mundo é o da música. Mas, como também tomei gosto pelo audiovisual, estou produzindo e dirigindo uma série de 10 programas para a TV chamado MPB – Letras com Histórias, que vai resultar também em um longa-metragem, com o mesmo nome. Trata-se de entrevistas com letristas como Paulo César Feital, Chico Salles e Tibério Gaspar, que falam do seu trabalho e de como essas letras são parte importante da história da música popular brasileira. Está dando muito trabalho, mas eu sou assim, não consigo ficar parado.

 

Facebook: https://www.facebook.com/ricardo.brito.336717?fref=ts

Youtube: https://www.youtube.com/channel/UC0Uo137xwuiL6SJywytV7Vw

 

Faça abaixo um comentário sobre este artigo. PARTICIPE!

Comentários (utilize sua conta no Facebook):

Powered by Facebook Comments

Author

Patricia Costa
Editora-chefe do ArteCult.com Jornalista, roteirista, mãe, poeta, editora, escrivinhadora, atriz. Mulher. Sou filha da PUC-Rio, formada em Comunicação Social com habilitação em jornalismo. Trabalhei em revistas sobre meio ambiente e educação. Fui parar na TV na produção do Globo Ecologia e logo estava participando da criação do Canal Futura, onde fiquei por mais de 7 anos. Trabalho na MultiRio, uma produtora de multimeios educativos da prefeitura do Rio de Janeiro, há 10 anos, atuando como roteirista e editora. Colaborei para o site Opinião e Notícia por 2 anos escrevendo sobre Educação, Cultura, Cidadania e Meio Ambiente: opiniaoenoticia.com.br Escrevi também para a Revista do Senac Educação Ambiental por cinco anos. Me formei em teatro pelas mãos de Bia Lessa. Fui dirigida por Alberto Renault e Roberto Bontempo. Conheci muita gente talentosa. Aprendi com muita gente boa. Fiz cursos livres de canto, de dança flamenca, de locução de rádio e de roteiro para TV e cinema. Sou uma leitora contumaz. E ótima ouvinte. Gosto de observar a vida e de dar pitaco em alguns assuntos os mais variados. Mãe de dois adolescentes, continuo aprendendo sobre a vida todos os dias. O humano me encanta. E me aterroriza também!