As várias caras de Belchior

BelchiorNão conheci Belchior por sua obra maior: ele próprio. No entanto, foi ele próprio quem melhor me apresentou Drummond. Ainda na minha época de estudante de Letras, a Revista Caras lançou uma coleção sobre nosso poeta na perspectiva de Belchior.

Ali me apaixonei pelos dois.

Entender Drummond pela perspectiva musicalizada de Belchior me fez abrir os olhos para um tipo de lirismo que só havia encontrado em alguns poucos autores por aí. Como estudante de Letras, eu sabia a dimensão de Carlos, de sua força lírica e de sua compreensão sobre o homem, sobre o estar no mundo, mas era algo que vinha de um outro, de alguém que coletivizara essa sua percepção, essa leitura, e dali que fora abraçada por um coletivo de pensadores das Letras. Eu era um típico leitor de romances e de Augusto dos Anjos. Entender lirismo por Augusto é conhecer uma força de suplantar o estamental da poesia. Drummond nada de estamental tinha. Tal qual Belchior. Ou a poesia. Eu que era tipicamente estamental. Um estudante que catalogava em seu caderno e anotações essa ciência que julga conseguir avaliar o sentimento.

Aqueles que veem na arte o ser humano deveriam se bastar de olhos fechados. Foi com esse duplo contato que eu tinha em meu carro, escutando Drummond por Belchior, e ali vendo muito mais o menino que ingenuamente supunha no estudo o seu encontro com as Letras, que também aprendi a ficar de olhos fechados. Dirigia devagar (um olho estava aberto para a direção), aproveitando cada decisão de ritmo em cima dos poemas. Chegava à casa, eu abria o livro que continha as gravuras que Belchior desenhara sobre Carlos. Traços crus se mesclavam com cores vivas. Traços fortes se fundiam com cores tenazes. Eu que era um, vi meu rosto em muitos. Ali senti a força que tem o poeta, que tem a música. Saí de uma estagnação para me ver voando entre beldades. Eram dois magros que se contrastavam. Um que vestira um par de óculos para talvez melhor enxergar o mundo; outro, em sua vasta e bela cabeleira, um bigode imponente que lhe servia de palanque à voz. Eu vi poesia na ausência de cabelos. Eu vi lirismo na força do rosto e dos pelos de Belchior. Eu era um jovem e graúdo gordo de inutilidades. Saí daquele marasmo para me corromper nessa felicidade de olhos fechados.

Belchior-02Belchior representa a tonicidade de uma geração que tinha sangue no sangue. Eu entendia a sua reclusão, esse desprendimento às coisas dos homens. Ele era poeta, alma de poeta, voz de poeta, olhar de poeta, homem da poesia. Seus olhos em cor, sua voz em color era tudo de que o mundo precisava. Sua ida deixa uma dessas lacunas temporais, imemoriais, irremediáveis, que não encontrará baliza em qualquer outro que um dia suporte aparecer. É como Leminski. Ninguém será um Leminski. Ninguém será um Belchior. Não haverá tão cedo um Drummond, apesar de muitos tentarem copiar esses homens. São homens irremediáveis.

E como nós ficamos, os pobres mortais da engenharia do cotidiano? E como nós ficamos, sabendo que a eles houve o limite do tempo? Tudo bem, eles são enormes, ficaremos remoendo suas obras atrás de mais e mais alma, de mais e mais fogo e vontade. Mas sabê-los finitos bota a gente comovido como o diabo. Essa semana última eu vi Mike Muir aqui no Imperator. Ele em sua banda Suicidal Tendencies. Reconhecer a voz que outrora me ensinou inglês e uma assombrosa velocidade de execução me fez um bem danado. Vivi um êxtase ao vê-lo. Estava bem diferente daquelas fotos da década de noventa, sim, o tempo pisa. Entretanto, ali ele estava. À minha frente. Com uma impressionante energia. Eu nunca vi Drummond. Nem Belchior ou Leminski. Gostaria de sentir a voz desses homens assim tão aqui, tão viva, tão pungente. A vida só é vida quando próxima.

Com a morte de Belchior soçobra em todos mais um capítulo da falência das grandes conquistas do século XX. Deixo aqui alguns poemas que podem dar uma dimensão de quem eram todos esses de que falei aqui. Belchior me foi um professor. Além disso, ele foi o homem latino-americano que me fez um rapaz latino-americano.

Perguntas em forma de cavalo-marinho

Que metro serve
para medir-nos?
Que forma é nossa
e que conteúdo?

Contemos algo?
Somos contidos?
Dão-nos um nome?
Estamos vivos?

A que aspiramos?
Que possuímos?
Que relembramos?
Onde jazemos?

(Nunca se finda
nem se criara.
Mistério é o tempo
inigualável.)
(Carlos Drummond)

 

Dor elegante

Um homem com uma dor
É muito mais elegante
Caminha assim de lado
Com se chegando atrasado
Chegasse mais adiante

Carrega o peso da dor
Como se portasse medalhas
Uma coroa, um milhão de dólares
Ou coisa que os valha

Ópios, édens, analgésicos
Não me toquem nessa dor
Ela é tudo o que me sobra
Sofrer vai ser a minha última obra

(Paulo Leminski)

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Author

Márcio Calixto
Professor e escritor. Lançou em 2013 seu primeiro romance, A Árvore que Chora Milagres, pela editora Multifoco. Participou do grupo literário Bagatelas, responsável por uma revolução na internet na primeira década do século XXI, e das oficinas literárias de Antônio Torres na UERJ, com quem aprendeu a arte de “rabiscar papel”. Criou junto com amigos da faculdade o Trema Literatura e atualmente comanda o blog Pictorescos. Tem como prática cotidiana escrever uma página e ler dez. Pai de dois filhos, convicto morador do Rio de Janeiro, do bairro de Engenho de Dentro. Um típico suburbano. Mas em seu subúrbio encontrou o Rock e o Heavy Metal. Foi primeiro do desenho e agora é das palavras, com as quais gosta de pintar histórias.
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