ESCOLAS DO RIO CONTRA O RACISMO: Conheça o professor, escritor e pesquisador Renato Noguera e veja seu texto sobre o racismo nas escolas

 

A luta contra o racismo nunca pode parar. Nos últimos meses, o mundo inteiro foi abalado pela morte terrível de George Floyd, que escancarou, mais uma vez, e via redes sociais, a enorme fratura racial que ainda existe nos EUA, mas que, na verdade, existe em todo o planeta.

O pedido sufocante de Floyd para respirar, amarrado e brutalizado daquela forma por aquele policial, simboliza uma situação global dos próprios afrodescendentes em vários lugares do mundo. Pessoas que não conseguem respirar, não conseguem empregos, não conseguem respeito, não conseguem paz para suas vidas, simplesmente pela cor da pele.

Infelizmente, aqui no Brasil, o racismo também não é exceção e, sim, regra. É um vírus tão devastador quanto o COVID-19, que assassinou durante séculos milhares de negros e continua a ceifar as oportunidades desde o início de suas vidas, evidenciando a dificuldade terrível de acesso à educação e empregos. Agravada agora, com um Governo capaz de atrocidades também contra a própria Cultura.

O que nos inspira é saber que, atualmente, em contrapartida, existe uma juventude mais consciente, com coragem suficiente para expor essas mazelas e lutar de verdade contra elas.

Como veículo de informação, o ArteCult procura chamar a atenção para as injustiças raciais e, hoje, compartilha o maravilhoso texto sobre o episódio da jovem Ndeye Fatou Ndiaye, inteligentissima e inspiradora, o que já ficou evidente em suas declarações na imprensa.

Recentemente, a jovem Ndeye, estudante do Colégio Franco-Brasileiro, um dos colégios mais tradicionais do Rio de Janeiro, foi vítima de racismo. Mas outros alunos expuseram o fato nas redes sociais, exibindo as mensagens terríveis trocadas via WhatsApp sobre ela. O caso ficou muito popular no Rio de Janeiro e, mais uma vez, colocou o racismo nas mesas de debates, sejam elas reais e virtuais.

O texto foi escrito por um dos maiores pesquisadores sobre o tema e sua importância é imensa, pois estamos falando da responsabilidade de instituições de ensino contra essa abominação que é o Racismo:

Escolas do Rio contra o Racismo (de Renato Noguera) 

O que dizer diante de um evento racista? Um fato de ordem jurídica diz respeito às instituições de ensino? Nós devemos responsabilizar uma Escola por ações racistas de alguns estudantes? E a família? Ou, indo mais longe, a sociedade? Pois bem, em termos técnicos podemos formular que o racismo é um fenômeno social, estruturante das sociedades construídas pela colonização, afetando todas as pessoas e instituições. Não existem arenas livres do racismo. O racismo também é um fenômeno de caráter histórico, centenas de anos de produção consolidando instituições que formalmente nasceram para excluir povos não brancos são mais poderosas do que discursos universalistas que clamam uma “Igualdade” pautada em textos legais. A letra da “Lei” não tem tanto poder quanto aquilo que movimenta os desejos mais inconscientes produzidos por diversos dispositivos sociais superpostos. Trocando em miúdos, “racismo não é uma questão de varejo; mas de
atacado”. O debate precisa ser feito de modo bastante qualificado, com a ousadia necessária para enfrentar os grandes temas da humanidade. Afinal, o filósofo camaronês Achille Mbembe tem razão ao dizer que o racismo é um dos maiores, quiçá, o maior obstáculo para o estabelecimento de uma sociedade democrática. O assunto por si é objeto de teses acadêmicas, aqui cabe pelo menos reiterar que: o racismo é um fator permanente nas sociedades humanas multirraciais. Como bem argumenta o cientista social Carlos Moore, primeiro, por ser produto de longa elaboração histórica e não ser somente uma construção intelectual. Em segundo lugar, por ser um elemento que está em todas as estruturas civilizatórias dos povos euroasiáticos, cuja expansão migratória, invasões e conquistas se deram tomando os povos negros como adversários, inimigos e seres que não seriam plenamente humanos. Como nos diz o sociólogo francês Émile Durkheim, a sociedade molda o ser humano, seus comportamentos, atitudes, ideias e ações. O racismo não pode somente ser creditado a alguns sujeitos isoladamente; seja porque o privilégio da branquidade é coextensivo ao racismo ou porque existe uma consciência coletiva, a sociedade habita nossa cabeça.

Renato Noguera. Foto: Reinaldo de Jesus Cunha/Associação Universitária Latino Americana

Por isso, não é tão simples uma pessoa branca apenas afirmar que não é racista. É importante reiterar que o racismo deve ser entendido como um sistema político que a beneficia. As análises mais consagradas explicam que, numa sociedade racista, pessoas negras (conforme o IBGE pessoas pretas e pardas) e indígenas não podem ser racistas, podem agir baseadas em preconceito racial. Mas isso é bem diferente de racismo, porque, formalmente, só uma pessoa beneficiada pelo racismo pode ser racista. Do mesmo modo, mulheres não podem ser machistas. Porque o machismo não as beneficia; somente dá vantagens aos homens. Mulheres podem apenas reproduzir preconceitos sexistas. Racismo, assim como o sexismo, são sistemas políticos e ideológicos; não se trata de opções de consumo que possamos tratar como escolha casual, tal como roupas que tiramos ou colocamos. Exemplo: “hoje, eu quero ser racista, mas amanhã eu vou combater o racismo participando da festa de aniversário do meu cunhado (negro)”. O racismo é expresso num conjunto de práticas que beneficia o agente branco da ação; por isso mesmo, de uma pessoa negra que é passiva da ação e não se beneficia, dizemos em termos técnicos: ela reproduz a ação racista. Mas tecnicamente racistas só podem ser pessoas beneficiadas por essas ações.

É preciso enxergar com profundidade desde fatos aparentemente pitorescos como o chamado “racismo recreativo” até as designações que sempre começam com o pertencimento racial das pessoas não brancas. Como diz a pesquisadora estadunidense Peggy McIntosh, White Privilege: Unpacking the Invisible Knapsak (em tradução livre seria: Privilégio branco: desembalando a mochila invisível). Nesse ensaio, McIntosh traz 50 situações diárias de privilégio branco. Coisas como: “Posso falar de boca cheia, e ninguém vai dizer que isso tem a ver com a minha cor”; “Posso usar cheques, cartões de crédito ou dinheiro em espécie e contar que a minha cor de pele não vai prejudicar minha aparência de rentabilidade financeira”; “Posso facilmente comprar pôsteres, cartões-postais, livros de fotos, cartões de aniversário,  bonecas, brinquedos e revistas infantis com fotos de pessoas da minha raça”; “Nunca me pedem para falar em nome de todas as pessoas do meu grupo racial”; e “Se declaro que tal situação é racial ou que não é racial, minha raça me dá mais credibilidade em qualquer uma das posições do que uma pessoa não branca teria”.

Após essa breve digressão, precisamos adentrar o fenômeno de racismo queatingiu em cheio a jovem Ndeye Fatou Ndiaye, estudante do Colégio Franco-Brasileiro.
Ela sofreu injúria racial ou racismo por parte de colegas do Colégio? Ela foi alvo de racismo. Ora, juridicamente, o Franco-Brasileiro não pode ser implicado, não cabe à
Escola julgar um processo. Mas, enquanto instituição social de formação, o papel do Colégio Franco-Brasileiro é uma oportunidade fenomenal para liderar e implementar com profundidade uma política antirracista, tornando-se referência através de um projeto educativo que tenha, entre seus eixos, a História e Cultura Afro-Brasileira, Africana e dos Povos Indígenas. Sem dúvida, diversos estudos apontam para um mundo dinâmico e com mudanças mais rápidas e significativas. Os desafios vindouros não podem abrir mão de repertórios epistemológicos africanos e dos povos originários da América.
De volta à questão que nos trouxe aqui: o que o Colégio Franco-Brasileiro deve fazer diante do caso de racismo que a estudante Fatou sofreu por parte de colegas? A
primeira opção seria a mais fácil: expulsar os jovens que cometeram injúria racial, mas, como as circunstâncias se deram fora do Colégio, existem elementos jurídicos que
desestimulam essa ação. Porém não agrada à opinião pública que o Colégio tenha esse dado jurídico como fiador. Isso não basta definitivamente. A segunda opção é não
expulsar, o que também não resolve. A terceira alternativa é a mais difícil, tomar um posição político-educativa antirracista consistente. Vamos por partes, o Colégio pode
dizer algo como: nós, assim como toda sociedade brasileira, somos responsáveis pelo racismo de modo direto ou indireto, seja pelo silêncio ou pela confusão conceitual que nos impediu de diferenciar bullying, preconceito, discriminação e racismo por tantos anos. Não é somente o Colégio Franco-Brasileiro que precisa enfrentar o caso de injúria racial contra Fatou, mas toda a sociedade brasileira. Porém assumimos a responsabilidade por liderar um processo urgente e necessário. Por isso, a melhor resposta do Colégio pode ser um diálogo com todos os atores sociais envolvidos, convidando as famílias para fazer algo que somente uma Escola pode fazer: repensar o que pensamos sem medo de encontrar novas ideias. Uma Escola educa mães, pais, filhas e filhos. Uma Escola educa toda a família. Num quesito tão urgente, o Colégio Franco-Brasileiro pode destacar que se sente honrado em assumir uma tarefa de extrema responsabilidade como essa. Penso que muito melhor do que se esquivar será assumir para a sociedade que a missão está aceita e, como todo instância educativa, não desistirá até que seu trabalho surta algum efeito. O que significa o Colégio Franco-Brasileiro pode, caso interesse, assumir como sua missão formar para uma sociedade democrática e plural; isso não se conquista sem enfrentar o racismo. A filósofa Angela Davis tem dito que não basta não ser racista; mas é preciso ser antirracista. Seja qual for a decisão do Colégio, deverá passar por um exame da sociedade na qual está inserido.

Numa sociedade racista, o racismo faz parte das relações institucionais e interpessoais; não estamos a dizer que é uma questão de “pessoas boas” contra “pessoas más”, pensar o acontecimento por um viés moral não ajuda. O acontecimento é de ordem ética e política, não é uma questão moral. Questões morais
trazem melindres, porque envolvem cultura e comportamentos privados. O debate é do campo ético e político, porque é público, isto é, envolve o interesse público. Não estamos tratando de “anjos” e “demônios” que serão julgados por uma conduta moral; mas de seres humanos que têm suas personalidades forjadas num contexto sócio-histórico marcado pelo racismo. Não podemos ficar espantados com os acontecimentos, eles são cotidianos. O racismo não está apenas nos xingamentos e situações de injúria racial, o racismo está estampado nas capas de revistas, na falta de pessoas negras em cargos de chefia, nas ocasiões em que uma pessoa branca “confunde” um jovem negro com um assaltante e depois a Polícia descobre que a identificação estava errada, na História do Brasil que identifica pessoas negras somente como escravizadas. Não serão duas dúzias de palavras universalistas, “somos todos iguais”, “não podemos discriminar” que terão capacidade de modificar um comportamento socialmente estabelecido há séculos. Com isso, não estamos a dizer nada além de que precisamos continuar essa conversa; a expulsão não resolverá, o silêncio tampouco. Não existe uma receita de bolo, mas existe a disposição para que o Colégio assuma a responsabilidade por conversar e, quem sabe, se tornar anfitrião da sociedade carioca interessada no debate. A saber: profissionais de educação, famílias e estudantes, gestores e empresários da área. Não posso deixar de dizer: o Colégio Franco-Brasileiro tem nas mãos a oportunidade para ser o provocador de um debate ampliado para a Educação das Relações Étnico-Raciais na cidade do Rio de
Janeiro. O primeiro passo é reconhecer que a responsabilidade é de toda a sociedade, incluindo-se, então, como propositor de uma agenda antirracista e liderando um
movimento, nome provisório, de “Escolas do Rio contra o Racismo”. Em termos populares, Franco-Brasileiro, faça do limão, uma limonada (sem muito açúcar). “

Renato Noguera ( Doutor em Filosofia pela UFRJ, professor e pesquisador da UFRRJ. Noguera também é roteirista, autor de literatura infantil, ensaísta e ativista negro) 

A propósito : os alunos e ex-alunos pretos e pretas do Colégio Franco-Brasileiro prepararam uma nota de repúdio em relação ao que aconteceu com Ndeye Fatou Ndiaye, veja AQUI.

 

Sobre Renato Noguera:

  • Renato Noguera. Foto: Reinaldo de Jesus Cunha/Associação Universitária Latino Americana

    Professor do Departamento de Educação e Sociedade (DES),

  • Professor do Programa de Pós-Graduação em Filosofia,
  • Professor do Programa de Pós-Graduação em Educação,
  • Professor do Contextos Contemporâneos e Demandas Populares (PPGEduc) da Universidade Federal
    Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ),
  • Pesquisador do Laboratório de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (Leafro),
  • Cordenador do Grupo de Pesquisa Afroperspectivas, Saberes e Infâncias (Afrosin),
  • Doutor em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ),
  • Roteirista,
  • Escritor

Livros publicados/organizados ou edições:

NOGUERA, Renato. Racismo uma questão de todos nós. 1. ed. Rio de Janeiro: Fundação
Roberto Marinho, 2018.
SILVA, W. L. (Org.) ; CARDOSO, R. C. (Org.) ; NOGUERA, Renato (Org.) ;
FLORARGAN, V. (Org.) ; SOUZA, G. F. (Org.) . Assim disseram as crianças: dicionário
transdisciplinar ilustrado por palavras filosóficas. 1. ed. Rio de Janeiro: Héxis Editora, 2018.
v. 1. 160p.
NOGUERA, RENATO; SILVEIRA, R. ; SCHAEFER, S. . O samba e a filosofia. 1. ed.
Curitiba: Primas Editora, 2015. v. 1. 293p.
NOGUERA, Renato. O Ensino de Filosofia e a Lei 10639. 1. ed. Rio de Janeiro: Pallas:
Biblioteca Nacional, 2014. 136p.
NOGUERA, Renato; SILVEIRA, R. A. T. (Org.) ; SCHAEFER, S. (Org.) . O Samba e a
Filosofia. 1. ed. Curitiba: Primas, 2014. 293p.
NOGUERA, Renato. Era uma vez no Egito. 1a. ed. Porto Alegre: Evangraf, 2013. v. 1000.
24p.
NOGUERA, Renato; CARVALHO, C. R. (Org.) ; SALES, S. R. (Org.) . Relações Étnico-
Raciais e Educação: contextos, práticas e pesquisas. 1a. ed. Rio de Janeiro: Nau e Edur,
2013. v. 500. 225p.
NOGUERA, Renato. Nana & Nilo: aprendendo a dividir. 1. ed. Rio de Janeiro: Hexis,
2012. v. 200. 26p.
NOGUERA, Renato. Nana & Nilo: que jogo é esse? 1. ed. Rio de Janeiro: Hexis, 2012. v.
300. 26p.
NOGUERA, Renato. Aprendendo a ensinar: uma introdução aos fundamentos filosóficos
da educação. 1a. ed. Curitiba:, 2009. v. 1. 208p.

 

 

 

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