Noves Fora Mayer, repressão e machismo

assedio-sexualEsta última semana ainda dará o que falar. E muito. A suspensão exemplar de José Mayer da Rede Globo exemplifica o poder que o feminismo tem hoje em mãos. Um poder justo, consciente, válido e didático. Ele, que representa o topo de uma cadeia social – homem branco bem sucedido e famoso – em contraponto a uma jovem em início de carreira – anônima e nova nesta mesma empresa – rivaliza com as várias épocas em que ações como a dele seriam consideradas válidas e que a culpa do acontecido recairia sobre ela.

A ação tomou vulto. Foi parar em rede nacional e se mitificou como um divisor de águas. É uma vitória e tanto. Mas ainda muito pouca perante todo um universo de valores e tempos que se fundaram no machismo. Em discussão há pouco tempo – haja vista eu ser professor – afirmei a uma turma que o mundo não é machista. O mundo é masculino. Ele foi todo moldado para a figura deste que Mayer simboliza, do homem branco, bem-sucedido, natural dono da razão e das posses. Esse mundo másculo um dia segregou a mulher, escravizou o negro e transformou a negra naquela com quem ele podia pecar. E esta fórmula tem milênios de uso. A literatura tem ao longo de sua história todos os argumentos a validar esta afirmação que fiz.

assedio-sexual_2Em Dom Casmurro, Bentinho afirma ser dissimulada a sua mulher, Capitu, a quem ele resgatava de memória. Não era dissimulada a memória de Bentinho, mas a mulher que estava em sua memória. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, as figuras femininas bailam sob a sombra mesquinha e parasitária de um homem que não soube ser dono de sua própria história, alvo constante do sonho de algumas moças, que viam nele uma chance ao casamento. Em obras como Amar, verbo intransitivo, em que a figura feminina é tratada com mais aspereza, Elza ensina o amor ao menino, esse amor carnal, pois é o papel que cabe a elas quando não adornadas pela insensatez do conservadorismo mais bestial. Em todas elas há o que os ensinamentos de um universo masculino transborda. Uma ênclise da sectarização fundamentalista destes encaixes sociais. Tudo isso sem citar Nelson Rodrigues.

Para dar mais pano às mangas, essa semana Rubem Fonseca lança seu novo livro, Calibre 22. Nele, temas como homofobia, machismo estão contemplados. Dono de uma prosa contundente, geradora de uma nova forma de literatura, O Brutalismo, adornada de muito sangue, assassinato, cropofagia e outras características bárbaras do ser humano, o livro vem em hora oportuna. Neste momento em que o mundo parece se passar a limpo, mesmo vivendo essa suposta conceituação chamada de pós-verdade, o livro retrata aquilo que de pior temos a oferecer. O personagem Mandrake volta à cena. Um deleite aos amantes da literatura policial e produzida por Fonseca. Em um mundo que hoje se dota de haters  – há alguns até ganhando rios de dinheiro personificando o ódio em canais de Youtube – ler até que limite o homem tem de capacidade para chegar à defesa de alguns de seus pontos de vista se torna obrigatório.

assedio-sexual_3O que a figurinista Susllem Tonani, envolvida no escândalo com Mayer, alcançou e dividiu opiniões, mas serve de esperança a um mundo que pode soar melhor – se souber aproveitar a oportunidade – e é ao mesmo tempo um divisor de águas, extremamente didático, da forma como os homens, que ainda se dizem homens, terão de tratar as mulheres. Os que já haviam internalizado essa consciência de respeito ganham coro; os que ainda fingiram achar que é besteira, agora têm em mãos o tamanho da rebordosa que deverão segurar. Que esse símbolo da campanha “Mexeu com uma, Mexeu com todas” não se dilua no ar.

Afirmo, “Mexeu com uma, Mexeu com todos”. Hora de darmos voz a um universo de verdadeiro e igual respeito.


LINKS

Figurinista assediada prestará depoimento:
http://www.msn.com/pt-br/entretenimento/famosos/figurinista-assediada-por-jos%c3%a9-mayer-vai-prestar-depoimento-%c3%a0-pol%c3%adcia-entenda/ar-BBzFlul?li=AAggNbi&ocid=UE07DHP

Informações de como agir se sofrer assédio no trabalho:
http://noticias.ne10.uol.com.br/economia/noticia/2017/04/04/sofre-assedio-no-trabalho-conheca-seus-direitos-e-saiba-como-agir-672498.php

NOVO TIPO PENAL DE ESTUPRO: FORMAS TÍPICAS QUALIFICADAS E CONCURSO DE CRIMES :  http://www.egov.ufsc.br/portal/conteudo/novo-tipo-penal-de-estupro-formas-t%C3%ADpicas-qualificadas-e-concurso-de-crimes

Nova lei amplia o conceito de estupro e aumenta as penas: 
http://diariodonordeste.verdesmares.com.br/cadernos/policia/nova-lei-amplia-o-conceito-de-estupro-e-aumenta-as-penas-1.394646

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Márcio Calixto
Professor e escritor. Lançou em 2013 seu primeiro romance, A Árvore que Chora Milagres, pela editora Multifoco. Participou do grupo literário Bagatelas, responsável por uma revolução na internet na primeira década do século XXI, e das oficinas literárias de Antônio Torres na UERJ, com quem aprendeu a arte de “rabiscar papel”. Criou junto com amigos da faculdade o Trema Literatura e atualmente comanda o blog Pictorescos. Tem como prática cotidiana escrever uma página e ler dez. Pai de dois filhos, convicto morador do Rio de Janeiro, do bairro de Engenho de Dentro. Um típico suburbano. Mas em seu subúrbio encontrou o Rock e o Heavy Metal. Foi primeiro do desenho e agora é das palavras, com as quais gosta de pintar histórias.
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