Michel Temer e seu talento para a coadjuvação

O grande público conheceu Temer como vice-presidente. Entrava para a história como um homem que estava ao lado daquela que é e sempre será a primeira presidenta legítima de nosso país. Vinda de um partido que conseguira eleger o primeiro metalúrgico, era história para não se colocar defeito. Mas algo ali não se encaixava: ao lado dele se apresentava uma outra mulher, esplendorosa  pela juventude e escandalizadora como esposa. Temer perdia a cena para aquela que depois ficou conhecida como sua esposa, uma jovem belíssima, discreta, em uma elegância afirmativa de primeira-dama, neste caso, segunda. Ali se desenhava essa aptidão à sombra dos holofotes de alguém.

Abro a possibilidade a este texto, pois ele se afirma também escritor. Não consegui, no entanto, acesso a seu livro. Consegui alguns poucos poemas. Vale ressaltar que ele é autor de outras duas obras no campo da advocacia. Um, inclusive, com venda no volume de 240 mil cópias. Porém, somente com a publicação de seu livro de poemas – Anônima Intimidade, publicado pela Topbooks – que ele se define escritor. José Sarney também o é, com o seu Saraminda. É, além disso, membro da Academia Brasileira de Letras, junto com Fernando Henrique Cardoso e Marco Maciel, pessoas com quem Temer dividiu a vida política. Até aí, concordo com ele. Somente com a minha publicação física é que este sentimento me foi completo. Depois, fui à sua biografia, algo que me deixou ainda mais estarrecido. Ele se construiu à sombra de proeminentes de sua época. Tentou ser deputado por duas vezes. Não conseguiu. Entrou para a vida pública como suplente de deputados vitoriosos à época da criação do PMDB, no início da década de 1980. Abriu escritórios de advocacia com grandes advogados. Isso não podemos negar: sempre teve bons relacionamentos.

Sua pouca relevância sempre abonada por outros aos poucos começa a cobrar seu preço. Durante seu período de vice-presidente, ele próprio afirmou ser um figurante no papel. Seu ego, alimentado pela possibilidade de chegar à presidência por vias indiretas, sobe-lhe à cabeça. Ele que engendrou a saída ilegítima de Dilma. Vale ressaltar que em seu partido ele nem o segundo foi a tornar-se presidente por caminhos tortuosos, coube-lhe o terceiro colocado, atrás de Sarney e Itamar Franco, aqueles que conseguiram também, como vice que eram, subir ao poder com a saída (ou pela morte, ou pelo impeachment) daqueles que eram presidentes. Ah, Temer é o segundo por via impeachment do PMDB. Nem nisso ele é percussor. Pode-se afirmar como o primeiro a tirar uma mulher do cargo. O que o define, talvez, como um machista.

Se pensarmos na forma como elegeu aquela que é a sua esposa, representando primordialmente aquilo que as feministas mais odeiam, a mulher como um troféu, um homem mais velho se fazendo a imagem de uma mais nova, é pura representação do retrocesso. Esta é, sinceramente, a palavra que melhor traduz o que passamos. É puro retrocesso a presença dele como presidente, conservador, aliado às elites opulentas e que visam a mais tradicional escravização das classes trabalhadoras, retirando seus direitos e tornando a mão de obra mais barata. É preciso lutar.

Cartoon de Alexandre Oliveira (Publicado em Humor Político em 12/06/2017)

Esta semana, em que ele se livra do julgamento do TSE que cassaria o seu mandato pela invalidação da chapa que compunha com aquela que ele tirou, ele volta a figurar como segundo lugar. As bases aliadas o elegem agora como um presidente de figuração, alguém que apenas deve constar no cargo de presidente. Ele é mais fácil de comandar. Torna-se presidente, em um parlamentarismo branco, o Ministro da Fazenda Henrique Meirelles, alguém que está balizado com as mudanças por que tanto anseiam os empresários e investidores. Seria, então, nosso primeiro-ministro. E Temer uma rainha de figuração.

O texto me cansa e a raiva me nubla as percepções. Prefiro não me seguir nesses pontos.

Deixo aqui alguns poemas. Sua obra principal de autoria fica como coadjuvante – algo que parece lhe apetecer. Tirem algumas percepções sobre esses poemas sortidos pela internet. Claro, não representam o total da obra, mas serve de consolo a esse que muito afirma de si mesmo.

 

ASSINTONIA

 

Falta-me tristeza.

Instrumento mobilizado

dos meus escritos.

Não há tragédia

à vista.

Nem lembranças

de tragédias passadas.

Nem dores no presente.

Lamentavelmente

Tudo anda bem.

Por isso

Andam mal

Os meus escritos.

 

Embarque

 

Embarquei na tua nau

Sem rumo. Eu e tu.

Tu, porque não sabias

Para onde querias ir.

Eu, porque já tomei muitos rumos

Sem chegar a lugar nenhum.

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Author

Márcio Calixto
Professor e escritor. Lançou em 2013 seu primeiro romance, A Árvore que Chora Milagres, pela editora Multifoco. Participou do grupo literário Bagatelas, responsável por uma revolução na internet na primeira década do século XXI, e das oficinas literárias de Antônio Torres na UERJ, com quem aprendeu a arte de “rabiscar papel”. Criou junto com amigos da faculdade o Trema Literatura e atualmente comanda o blog Pictorescos. Tem como prática cotidiana escrever uma página e ler dez. Pai de dois filhos, convicto morador do Rio de Janeiro, do bairro de Engenho de Dentro. Um típico suburbano. Mas em seu subúrbio encontrou o Rock e o Heavy Metal. Foi primeiro do desenho e agora é das palavras, com as quais gosta de pintar histórias.

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