Memórias Sólidas e uma nova promessa a caminho

Memorias Solidas - Raul MartinsO mal de alguns livros é ter fim. Histórias firmes e contundentes deveriam ter alguma forma de continuação, de constância, como já fazem alguns criadores de arte contemporânea, que organizam reflexões novas sobre o universo que criam. Essa é a sensação que tenho com este livro do jovem e contundente autor Raul Martins e seu Memórias Sólidas. Foi uma madrugada longa e feliz. No mesmo dia em que o adquiri, em seu lançamento no Espaço Bistrô Multifoco.

Era noite do dia 16 de fevereiro de 2017. Raul, alguém para quem tive a sorte de dar aula há uma boa pá de anos, me contatou dizendo de seu primeiro livro. Aquele misto de susto e de alegria me tomou, pois um aluno tornara-se escritor. Quando me mandou um trecho do que seria sua obra, observei sua firmeza. A obra tinha um fôlego perfeito. Sintático. Sem excessos e floreios. Não era o texto de um incauto, que mescla palavras aleatórias em torno de um espírito de escrita. Ali havia a sinergia da experiência, de alguém que soube erigir em seu texto uma certeza e linearidade. Em suas iniciais sutilezas, ele transborda algo delicado, doce, em uma narrativa de autodescoberta em primeira pessoa.

Seu livro gradua em dose certa as nuances em torno do personagem principal Lázaro, alguém que tem o dom de ver mortos. Em um primeiro momento, o leitor destas linhas pode supor haver o clichê que tomou algumas obras de encomenda que tanto inundam o entretenimento literário. Não é aqui o caso. Lázaro foge desses lugares-comuns que se comungam aos montes. Ele desdenha de seu dom, não se tornando refém tão comum ao universo dos escolhidos vorazes e divergentes. Aqui não há capa e espada. Lázaro é um homem (ou pós-menino, pois tem pouca idade) como um outro qualquer, que sabe de sua capacidade, começa a aprender a lidar com ela, mas não se torna um arauto.

Parágrafos fluidos e um controle da cadência da narrativa impressionante, o jovem autor nos conduz a uma história em que passado e presente se mesclam, se condizem, e aos poucos Lázaro vai se encontrando nesse espaço de heróis silenciosos, cotidianos, que fazem a gente se render à sua simpatia, identificação e timidez. Ele não espera reconhecimento, nem vai buscá-la, pois em nele não há o espírito da autopromoção ou da figuração de um símbolo para mover grupos. Ele quer entender essa condição que os espíritos, os mortos, lhe apresentam. Aqui que está toda a beleza do livro.

Percebam este trecho:

“Um banho foi minha primeira opção. Tirei todo o pó que havia grudado em mim e lavei o rosto para disfarçar o choro. Como todo bom banho, senti-me uma nova pessoa ao sair dele. Ainda havia uma “ressaca emocional”, mas totalmente controlável. Comi uma coisa qualquer na cozinha em frente a bancada e fui para meu quarto. Precisava colocar no papel o que havia aprendido naquele dia. Peguei um pequeno caderno com uma capa feita de tecido azul em folhas sem linhas. Sentei-me em minha escrivaninha de trabalho. Estava com a primeira página totalmente branca à minha frente. Demorei um tempo para arriscar a escrever a primeira palavra; depois de alguns minutos eu consegui escrever.

Fantasmas possuem matéria.

Fiquei encarando minha própria frase. Não sabia como definir aquilo de outra forma. Eu já havia tocado em dois fantasmas ao longo de minha vida: a trans cujo nome não tive a chance de conhecer, e o senhor Astolfo. Certamente eles não eram feitos de nenhuma substância mensurável, mas ainda sim possuíam peso.

Escrevi logo abaixo.

São feitos de memórias?”

(Memórias Sólidas, pág. 60)

Foi aqui que encontrei boa parte da essência do livro e de sua comoção em torno do título. Porém, olhem que belo trecho:

“Anos depois, eu estava novamente em frente a fachada carcomida da estrutura. Respirava de forma acelerada e meu coração pulava dentro de mim. Já sentia as pontadas usuais no coração. Quando tinha dezenove anos, comecei a sentir pontadas devido ao estresse. No in´cio, achei que iria morrer de ataque cardíaco até ir ao médico e ele me convencer de que era um sintoma psicossomático. Mesmo assim ainda precisava me convencer de que não ia enfartar. Tomei coragem e dei o primeiro passo para dentro. Uma mudança brusca de temperatura tomou meu corpo e logo pude me sentir num clima diferente. O sebo era um daqueles típicos locais antigos que parece ser muito mais frio por dentro. O mesmo dono da loja estava sentado atrás do caixa, apesar do tempo não ter sido muito amigável com ele. Não pareceu me reconhecer, o que era compreensível; afinal, não ia àquele lugar há muito tempo.

  Fingi interesse em algumas coisas do primeiro andar. Passava o olho com relutância e sem focar em nada de verdade. Peguei um livro qualquer da prateleira e observei a capa como se estivesse ponderando comprá-lo. Quando achei que já havia dado voltas o suficiente pelo recinto cheio de prateleiras de metal e poeira, resolvi subir. Toquei no corrimão de madeira áspero e passei minha palma por ele de forma devagar, enquanto dava passos para subir os degraus. O coração batia cada vez mais forte. ‘Não vou enfartar, não vou enfartar, não vou enfartar’, eu repeti para mim mesmo. Quando cheguei ao topo da escada, deparei-me com mais prateleiras de metal e mais poeira. Pelo que havia guardado na minha memória, tudo parecia igual. Prestei atenção aos sons para tentar captar o velhinho falando sozinho, como era seu costume. Será que fantasmas perdem o costume? Tudo que consegui ouvir eram os sons da rua que apareciam no ambiente de forma abafada e distante.

  Caminhei lentamente entre as estruturas de metal tentando captar algo sem saber como. Àquela altura da minha vida, eu já sabia que não tinha nenhum sensor de fantasmas, ou algo do tipo, já que eu sempre confundia espíritos com pessoas vivas; mas pensei que poderia conseguir senti-lo por perto. Foi nesse momento que passei a ouvir algo.

Sou uma sombra! Venho de outras eras,

Do cosmopolitismo dos moneras…

Pólipo de recônditas reentrâncias

Larva de caos telúrico, procedo

Da escuridão do cósmico segredo

Da substância de todas as substâncias.”

Não tive como não me encontrar no personagem.

Eu também ia pedir para não enfartar.

Comments

Author

Márcio Calixto
Professor e escritor. Lançou em 2013 seu primeiro romance, A Árvore que Chora Milagres, pela editora Multifoco. Participou do grupo literário Bagatelas, responsável por uma revolução na internet na primeira década do século XXI, e das oficinas literárias de Antônio Torres na UERJ, com quem aprendeu a arte de “rabiscar papel”. Criou junto com amigos da faculdade o Trema Literatura e atualmente comanda o blog Pictorescos. Tem como prática cotidiana escrever uma página e ler dez. Pai de dois filhos, convicto morador do Rio de Janeiro, do bairro de Engenho de Dentro. Um típico suburbano. Mas em seu subúrbio encontrou o Rock e o Heavy Metal. Foi primeiro do desenho e agora é das palavras, com as quais gosta de pintar histórias.
%d blogueiros gostam disto: