A invenção da vida

Este mês serei pai. Nasce-me mais um. Já tenho a sorte de ser pai de menina. Experiência esta que me inventou como ser humano. Trouxe para mim toda uma sensação de completude, de encontro, de felicidade.

E agora me vem um menino.

Se antes eu já sentia a vida feliz, agora tenho toda a certeza do mundo. A vida em si está além do que nos ofertam, esse mecanismo mecatrônico de manipulação dos instantes, de fabricação de nossos gostos, nossos sonhos, nossas vontades. Essas lutas matematizadas em dinheiro comprado para a casa, para o carro, para os aparelhos que travestem nossa humanidade da mais ignota temperança. Quando Guimarães escreveu que a vida era feita no feliz, ali ele estava sendo ainda mais contundente do que em seu Grande Sertão: veredas. A vida é feita no feliz. No triste também. A vida é feita na sensação de saber que está vivo. Este negócio de carro, de casa, de coisas, tudo é apenas uma fabricação. Não serei, no entanto, hipócrita: eu trabalho demais, para que os meus tenham estes confortos. Dar um teto às pessoas que amamos é caro, constante e mensalmente caro. Mas não tenho sensação melhor do que abrir a porta de sua casa, ser recebido por sua esposa, por seus filhos, suas memórias e seus sorrisos. A vida é feita nestes retornos.

Agora mesmo, escrevendo, abdico de com eles estar. Porém, eles aqui o estão, todos, nestas palavras. Nesta sinergia de colar palavras e palavras e palavras. Pela minha filha – que não mora comigo, é de meu primeiro casamento -, pela minha esposa – que hoje está na casa dos pais, em função do tamanho da responsabilidade em carregar em seu ventre nosso rebento – e nosso bonequinho – que ainda não veio, só que o sinto aqui. Escrever agora se torna essa abdicação somática. Um doce e feliz paradoxo.

E ele está aqui – o não nascido mas tanto amado. Invento nestas palavras toda a simbologia da existência. Em pouco mais de alguns dias ele estará conosco – comigo, com minha esposa, com nossa família que congruirá as suas lágrimas. Escrevo este texto na expectativa de imaginar o rosto do meu filho, que possivelmente virá um dia antes do aniversário de sua irmã, e aqui tenho o rosto dela, de minha Sofia, sorrindo seu sorriso doce, delicado, em eterno rosa de feliz, a acariciar a barriga da mãe de Tutuca – sim, meu filho não nasceu e já tem seu apelido – querendo-o. Ele tem nela alguém que já o ama muito. A vida é essa invenção toda.

Não nego, levei um tempo para entender o motivo da vida. Fui daqueles que se fizeram na negação, no descontentamento. Criar vidas me salvou a vida. Devo tudo à minha primogênita. Os livros me mantiveram por aqui, em símbolo de busca por conhecimento. Ler e decodificar preenchiam algum espaço. Não sabia, em tudo, o que estava a faltar. A vida era isso mesmo? Algumas mulheres, algumas insanas experiências que preenchem nossa história com falsos troféus sociais, amigos perecíveis? Estes me foram muitos. Vinham no sorriso. Sumiam no raiar de algumas iluminuras. Navego no entanto deste óbvio. Peço perdão aos que aqui buscam algo além destas palavras já tão castigadas. Entretanto, é importante salientá-las: elas dicotomizam nosso rosto, ora triste, ora feliz.

Hoje, constante.

Eu serei pai de novo. Tenho em braços amores que julgo agora eternos. Esta esposa, este filho e a minha filha. O bom homem não é aquele que carrega histórias de pluralidades; o bom homem sintetiza o sentimento do encontro, embora saibamos que há tantos desencontros. Passei por isso, um eterno desencontrado não preenchido. Agora, não mais. Invento-me e me reinvento nesse mundo peculiar que sorrio aqui para vocês.

Espero fazê-los rir um pouco também. Vale a pena.

Faça abaixo um comentário sobre este artigo. PARTICIPE!

Comentários (utilize sua conta no Facebook):

Powered by Facebook Comments

Author

Professor e escritor. Lançou em 2013 seu primeiro romance, A Árvore que Chora Milagres, pela editora Multifoco. Participou do grupo literário Bagatelas, responsável por uma revolução na internet na primeira década do século XXI, e das oficinas literárias de Antônio Torres na UERJ, com quem aprendeu a arte de “rabiscar papel”. Criou junto com amigos da faculdade o Trema Literatura e atualmente comanda o blog Pictorescos. Tem como prática cotidiana escrever uma página e ler dez. Pai de dois filhos, convicto morador do Rio de Janeiro, do bairro de Engenho de Dentro. Um típico suburbano. Mas em seu subúrbio encontrou o Rock e o Heavy Metal. Foi primeiro do desenho e agora é das palavras, com as quais gosta de pintar histórias.

One comment

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.