A temática do suicídio como representação máxima de nossos problemas

sintomas_da_depressãoDe uns tempos para cá, a depressão tem sido tratada com o devido respeito. Não somente como uma instabilidade de mentes fracas, mas como doença verdadeiramente aniquiladora, anuladora das forças do indivíduo. Junto a essa preocupação, temos a valoração do tema do suicídio, pensamento comum daqueles que da depressão sofrem. E será deste que irei tratar aqui hoje. Primeiro, como produto de um concernimento, vejo o suicídio como uma escolha devastadora, desastrosa e de caráter ambíguo. A vida é naturalmente bela e nada justifica a morte. Principalmente, escolher o suicídio como castigo àqueles que levaram a cometer tal ato, além de bestial, ele talvez não faça surtir o efeito que se deseja. A conversa, o papo livre e aberto, sem rodeios, ou até mesmo escolher um círculo de pessoas que lhe aceite como deve ser é o melhor caminho. Sei, escrever sobre que decisões tomar é muito pouco e até ingênuo de minha parte. Porém, se alguém que ler esse texto imaginar se matando, por favor, repense, a sua vida é naturalmente valiosa.

MV5BYTFmNzRlNWYtMmFmNi00ZTFiLWJhODgtOGM5ODQ5NTgxZWUwL2ltYWdlXkEyXkFqcGdeQXVyMTExNDQ2MTI@._V1_UX182_CR0,0,182,268_AL_Ao longo do mês de Abril deste ano de 2017, duas críticas surgiram que colocam em xeque uma série que a Netflix ofertou a seus assinantes. Chamada de 13 Reasons Why (ou Treze Razões porquê), a série de produção da própria Netflix retrata o suicídio de Hannah Baker, que gravou treze fitas e entregou a treze pessoas que ela considerava responsáveis sobre sua decisão pela morte. Pablo Villaça, crítico cinematográfico, chega a recomendar que não se assista à série por ela romantizar o suicídio, como se o validasse. Ele próprio afirma que por mais que ele não goste de uma produção, nunca chegou ao extremo de recomendar que não fosse vista. Marcos Cândido, jornalista da revista Trip, publicou uma crítica que sintetiza um tom muito semelhante, declarando que a série é irresponsável. Os dois textos geraram uma onda daqueles que obviamente a defendesse e outros que validavam a crítica, vendo 13 Reasons Why como perigosa, insinuativa e irresponsável.

Vale salientar que não é de agora que vivemos uma onda de apoio àqueles que veem no suicídio uma saída extrema. Desde o início do ano, uma campanha silenciosa se move pelo Facebook. Algumas pessoas publicam o telefone de contato do CVV (Centro de Valorização da Vida), que se propõe como um canal de suporte para aqueles que pensam em cometer suicídio ou que precisam de apoio emocional de qualquer natureza. Dados do próprio CVV, no entanto, salientam uma outra realidade: desde que a série foi ao ar, as ligações ao Centro aumentaram em mais de 100%. Ruim ou não, produto ou não da série, se são essas ligações resultantes de uma maratona de fim de semana na série ou se realmente demonstram o volume de pessoas que se imaginam tirando a própria vida, é como diz Cândido, há de se analisar caso a caso. Não nego, mesmo após uma maratona, alguém ligar é de extrema coragem. Mesmo que tenha relação com a série, estas pessoas que ligam precisam, sim, de ajuda.

Não vou chegar ao extremo de afirmar que não se deve ver a série. Vejo todas essas histórias como uma comoção coletiva, produto da novidade e da forma crua (às vezes um tanto lenta) e direta, até romantizada sim, que a série se propôs a tratar o tema. Não soube, até o dado momento, de alguma pessoa que tenha se matado após assistir à série. Preocupa-me mesmo o que se produz hoje de um jogo chamado Baleia Azul. Há relatos de, pelo menos, duas mortes aqui no Brasil de jovens que chegaram a se matar vítimas do jogo. Aqui reside a minha preocupação maior. Movido por um tutor, um curador, que dita regras que vão desde a privação do sono até situações de tortura com autoflagelo e ao fim a morte, com exposição na Internet, aqueles que o praticam realmente precisam de intervenção imediata. A série pode nos servir de luz para conseguir compreender o sufoco sentimental por que passa aquele que se imagina morto. Quem não sofre da doença não consegue dimensionar as dores internas que alguém nesse íntimo de flagelo possui. A arte, como sempre, tem esse papel de mover nossos sentimentos para uma aproximação ou repulsa. Neste caso, a série atende à expectativa e atinge seu objetivo.

wertherCom toda essa comoção, muitos lembraram de outras situações em que a arte foi culpada por ondas de suicídio, como aconteceu com a publicação de Goethe no final do século XVIII de Os Sofrimentos do Jovem Werther. Muitos, à época, se identificaram com as dores de amor do jovem, que finda a sua vida com um tiro na cabeça, e agiram da mesma forma. Foi considerado um livro maldito pela igreja, pois a ele muitos suicídios foram atribuídos. Olhem esse trecho da obra:

L-PM-Pocket-Os-Sofrimentos-do-Jovem-Werther-Johann-Wolfgang-Goethe-172381Minha alma inunda-se de uma serenidade maravilhosa, harmonizando-se com a das doces manhãs primaveris que procuro fruir com todas as minhas forças. Estou só e abandono-me à alegria de viver nesta região criada para as almas iguais à minha. Sou tão feliz, meu amigo, e de tal modo mergulhado no tranquilo sentimento da minha própria existência, que esqueci a minha arte. Neste momento, ser-me-ia impossível desenhar a coisa mais simples; e, no entanto, nunca fui tão grande pintor. Quando, em torno de mim os vapores do meu vale querido se elevam, e o sol a pino procura devassar a impenetrável penumbra da minha floresta, mas apenas alguns dos raios conseguem insinuar-se no fundo deste santuário; quando, à beira da cascata, ocultas sob arbustos, descubro rente ao chão mil diferentes espécies de plantas; quando sinto mais perto do meu coração o formigar de um pequeno universo escondido embaixo das folhagens, e são insetos, moscardos de formas inumeráveis cuja variedade desafia o observador, e sinto a presença do Todo Poderoso que nos criou à sua imagem, o sopro do Todo-Amante que nos sustenta e faz flutuar num mundo de tenras delícias […].” (Trecho de Os Sofrimentos do Jovem Werther)

maxresdefaultEu participo de um movimento aqui no Brasil denominado THE DISTINGUISHED GENTLEMAN´S RIDE que tem como foco arrecadação de doações para a luta contra o câncer de próstata e da prevenção do suicídio entre homens. Este ano estamos organizando o primeiro evento aqui no Rio de Janeiro. Dados da OMS (Organização Mundial de Saúde) alertam para o número 3,5 maior de suicídio entre homens do que mulheres. Ao mesmo tempo, para cada caso concretizado de suicídio, houve outras 26 pessoas que tentaram e desistiram. Esses dados não podem ficar no silêncio das meras estatísticas, eles precisam ser alardeados, pois muitos que pensam no suicídio, assim o fazem por supor que não tem alguém para dar o suporte de que tanto precisam. O suicida precisa se sentir abraçado para que consiga se desfazer desta ideia.

Neste caso, eu preciso sair em defesa da Netflix, por ceder espaço e talento para a produção. Muitos dos que semana passada comigo conversaram me disseram da importância de se falar sobre suicídio. Eram em sua maioria Psicólogos e Psiquiatras que tratam primordialmente de jovens tomados pelas dores da contemporaneidade e que se não se veem nesta sociedade de tantos muitos. Não é de hoje que sabemos que um dos maiores produtos desse capitalismo hegemônico é a tristeza da não concretização de sonhos. Destes sonhos forjados pelo dinheiro, pelo consumismo, pela falsa consciência de sucesso que há em torno do símbolo da bela casa, do belo carro e de outros demais ícones perniciosos do consumismo. Estamos nos tornando uma sociedade de doentes que falsamente alardeiam felicidade. O Facebook está aí como prova, uma comunidade de falsas vitrines de sorrisos adornados de selfies das mais caricatas. Espero um dia, severamente, rir deste nosso tempo. No entanto, o que hoje vivemos é algo perigoso e problemático.

Precisamos sim tratar do tema do suicídio, para que ele possa ser tirado da cartela de opção daqueles que sentem severas dores. Há de se tratar com delicadeza e humildade. Tudo em prol do melhor sentimento do mundo que é o amor ao próximo.

E esse é insubstituível.

 


ALGUNS LINKS SOBRE DEPRESSÃO, BALEIA AZUL E SUICÍDIO:

http://g1.globo.com/educacao/noticia/jogo-da-baleia-azul-e-seus-desafios-cinco-dicas-para-prevencao-de-pais-e-alunos.ghtml

http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/viver/2017/04/17/internas_viver,699566/diagnosticado-com-depressao-youtuber-felipe-neto-faz-alerta-sobre-sui.shtml

http://revistagalileu.globo.com/Sociedade/noticia/2014/10/6-sinais-de-comportamento-suicida.html

https://nacoesunidas.org/depressao-e-tema-de-campanha-da-oms-para-dia-mundial-da-saude-de-2017/

http://g1.globo.com/bemestar/noticia/depressao-cresce-no-mundo-segundo-oms-brasil-tem-maior-prevalencia-da-america-latina.ghtml

http://www.abrata.org.br/new/artigo/impactoDepressao.aspx

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Márcio Calixto
Professor e escritor. Lançou em 2013 seu primeiro romance, A Árvore que Chora Milagres, pela editora Multifoco. Participou do grupo literário Bagatelas, responsável por uma revolução na internet na primeira década do século XXI, e das oficinas literárias de Antônio Torres na UERJ, com quem aprendeu a arte de “rabiscar papel”. Criou junto com amigos da faculdade o Trema Literatura e atualmente comanda o blog Pictorescos. Tem como prática cotidiana escrever uma página e ler dez. Pai de dois filhos, convicto morador do Rio de Janeiro, do bairro de Engenho de Dentro. Um típico suburbano. Mas em seu subúrbio encontrou o Rock e o Heavy Metal. Foi primeiro do desenho e agora é das palavras, com as quais gosta de pintar histórias.
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