Introdução a uma perspectiva

Iniciei o ano em minhas turmas afirmando que 2018 será um ano para cardíacos. Em uma mera perspectiva pedagógica, queria apenas demonstrar que não seria um bom exercício de humor tentar supor que questões cairiam nos vários vestibulares que eles tentariam ou que não valeria buscar uma pista sobre o tema de redação do ENEM. Está tudo muito volátil.

Se 2017 foi um 2016 a cada dia em todas as suas tensões sociais e políticas, 2018 será um 2016 e 2017 unidos. Cotidianos. Iniciamos o ano com a morte de Marielle. A intervenção militar parece até um nada perto disso.

Começo esta busca por perspectiva resgatando uma afirmação que fiz em rede social: a de que este ano não teremos uma eleição. A sanha por poder destes que nele agora estão é enorme, insaciável, intransponível. O golpe orquestrado em 2016 hoje ganha a validade das teses acadêmicas, e estes acadêmicos que querem fazer delas até disciplina em universidades estão sendo perseguidos. Claro, quem está no poder – principalmente pela forma como chegou – não quer detratores. Essa atual ditadura travestida de democracia usa o falso júdice de Constitucionalidade para aplacar, diminuir e impor. Com a questão da intervenção militar, a situação ganha ares tenebrosos. Mas ainda não chegamos no ápice.

Ilustração Titi Carnelós

2018 está apenas em seu início. O primeiro parágrafo desta história termina com o assassinato de Marielle. Um introito intromisso e mesquinho. É como o fim de um prólogo que se inicia bizarro com as afirmações de que não estamos às portas de uma ditadura plena, declarada, deflagrada e premissa para o caos aos que lutam pelo senso de igualdade e que, ao fim, valida a tese de temor em quererem os militares de não possuírem uma nova Comissão da Verdade. Por que buscarem uma segurança jurídica para a inexistência de uma futura Comissão da Verdade se as armas já estão nas ruas? Não irei usar este texto para culpas, até por se chamar introdução, nem participo das investigações, apesar de saber um pouco sobre tal, porém quem matou Marielle já possui a segurança jurídica da completa impunidade. Assassiná-la foi tentar tirar de circulação bons políticos, aqueles com os quais sonhamos e exigimos destes que lá estão. No entanto, nossa ingenuidade pela cobrança sufocada pela certeza de que nada acontecerá nos mantém nesse status quo de desapego e desesperança. Hoje entendo bem meus pais, jovens crescidos na ditadura lutando contra o leão de todos os dias. Não se matavam, eles e o Leão, mas se arranhavam muito. As cicatrizes nos meus velhos são muito mais profundas.

Passado um mês da morte de Marielle, as pessoas estão assustadas. Visto como um claro atentado à democracia, a morte dela realmente não será em vão. Os ânimos estão acirrados. O jogo pelo poder tenta a todo custo tirar Lula da jogada. Seu patrimônio político é enorme, ele concorrendo, não terá para ninguém em um primeiro momento. Aproveito ao adendo, com ele agora preso, já há um movimento de se votar naquele que ele indicar. Cartas lançadas. Entretanto, o nome de Bolsonaro, o mito construído no medo e na necessidade de opressão, vai se validando no espaço deixado pelas lacunas das outras incapacidades de representação. O voto de protesto, neste caso, será o maior exemplo de desastre, isso, claro, se tivermos eleição.

Não sou cientista político. Assustei-me quando Michael Moore escreveu aquele texto em que mostrava como Trump iria ganhar a eleição. Este representa um retrocesso semelhante ao que já vemos com Temer, mas que se consagrará com Bolsonaro, que também possui um patrimônio político perigoso aos nossos olhos por buscarmos justiça social. O Brasil não é só para os ricos. Nem só dos pobres, como querem algumas esquerdas extremas. O Brasil pode ser de todos. Utópico, mas possível. A democracia já foi impossível milênios atrás. Hoje soa enfraquecida. Para mim, é uma máscara para os donos do poder. Sei que a democracia brasileira é jovem, afeita a estas temperanças de humor; não podem, contudo, pensar que somos uma república distante do que acontece em todo o mundo.

As redes sociais já deram provas que de nossas fronteiras não mais existem. Nem geográfica, linguística ou cultural. Tudo está um bololô só. Trump e Doria estão no mesmo barco da pós-verdade eleitoral. Fake News não é mais uma expressão em inglês. Não somos mais uma República de Bananas.
Para os que andam com a faca nos dentes e sangue nos olhos, a indicação de Lula ao Prêmio Nobel da Paz é vista como uma resposta da Comunidade Internacional ao que acontece no país. Para outros é visto pela inveja do todo que ele conseguiu e ao final da vida, sob a conjuntura forjada de suas culpas, ter esta indicação. Marielle estaria, talvez, neste mesmo caminho. Como esteve Obama nos EUA. Poderia citar vários outros. Até teria este espaço. Prefiro guardar munição para próximas especulações.

Nesta possibilidade de uma verdadeira ditadura, a certeza de que 2018 será um ano para cardíacos deve ser vista como um convite a lutar pela democracia mais plena. Atente-se. Há muito caos se rascunhando para os próximos capítulos.

Passeata dos Cem Mil em 26 de Junho de 1968. Foto: EVANDRO TEIXEIRA.

MÁRCIO CALIXTO

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Márcio Calixto
Professor e escritor. Lançou em 2013 seu primeiro romance, A Árvore que Chora Milagres, pela editora Multifoco. Participou do grupo literário Bagatelas, responsável por uma revolução na internet na primeira década do século XXI, e das oficinas literárias de Antônio Torres na UERJ, com quem aprendeu a arte de “rabiscar papel”. Criou junto com amigos da faculdade o Trema Literatura e atualmente comanda o blog Pictorescos. Tem como prática cotidiana escrever uma página e ler dez. Pai de dois filhos, convicto morador do Rio de Janeiro, do bairro de Engenho de Dentro. Um típico suburbano. Mas em seu subúrbio encontrou o Rock e o Heavy Metal. Foi primeiro do desenho e agora é das palavras, com as quais gosta de pintar histórias.

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