Dia do Livro

Estávamos prontos eu, minha esposa e minha filha para um passeio de família.

Coisa simples, saímos de uma festa de comemoração. Um mês de nosso casamento. Aniversário de minha mãe. Casa de minha avó. No entanto, queríamos um momento nosso. Um encontro nosso. No meio do caminho, Sofia, minha filha, avistou o parque de diversões do Nova América, shopping aqui do Rio. Disse-me, Pai, quero andar naquela roda gigante, nunca andei em uma. Adendo, ela nunca andara comigo. Entendi seu pedido. Fomos à Roda.

Depois da óbvia diversão, seguimos a uma livraria do próprio shopping. Sempre lhe dissera que nunca negaria livros. Foi o que nos aconteceu. Ela, que sempre buscava os livros de tanto rosa, tantas fadas e das várias outras identidades infantis do universo das meninas, chegou ao livro do Menino Maluquinho.

Ziraldo ali se fez o mestre de sempre.

Ela, que folheou o livro, deixou os outros de rosa eterno, e foi àquele de capa simples, palavras diretas e desenhos fabulosos. Acompanhei seu silêncio pela descoberta, ao invés das pressas de sempre ao fazer volver e volver páginas com desenhos imperiosos, ela leu.

Leu cada uma daquelas palavras datilografadas de Ziraldo, daqueles desenhos datilografados de Ziraldo e foi descobrindo um mundo maior. Ela leu. E leu tanto que foi atrás de outros livros com mais e mais palavras. Pegou um de origem das fadas. Poucas figuras, bons textos. Tinha algo de antropológico no livro. Ali descobriu que o nome de uma das tão divulgadas fadas não era o que os filmes entregava. Viveu uma decepção e ao mesmo tempo uma epifania. Ao saber que eu, professor de literatura, também não detinha aquele conhecimento que ela me passou, discutimos o livro. Eu o li junto com ela.

No Natal, ela havia ganhado um dos irmãos Grimm. A origem daquelas histórias eufemizadas na domesticação dos tempos a fez encontrar outra realidade das obras literárias: a sua manipulação para atender a motivos financeiros. Ela, ao ver que aqueles textos pouco ou não casavam com a promoção feita pelo universo hollywoodiano, também sentiu outra decepção. Ela sentiu que o seu gosto estava sendo ditado por outro. Ela leu. Tudo isso se deu em um intervalo de dois dias.

Chegou o aniversário do primo, 23 de Abril: dia do livro. Não nos importou ser dia de São Jorge. Eu lhe mostrara o encantamento que a religião faz às pessoas, andávamos por Quintino, eu a levei àquela igreja e depois à sua, em função de sua catequese. Eu não sou religioso, ela é católica. Não questiono suas decisões, ela desde pequena é dona de suas vontades. Quero-a assim. Para este meu afilhado – o primo do aniversário – escolhemos alguns livros. Eram cinco, um a Lygia Bojunga, dois de Julio Verne e outros de Ana Maria Machado. Foi esta última quem me fez escrever, ou melhor, deu o estopim para o começo desta jornada pelo desenho com palavras. Ao meu afilhado, quis pelo menos algo semelhante.

Quando dei ao menino os livros, Sofia foi junto com eles. Eles todos. Disse sobre cada um, sua experiência de passar o fim de semana lendo – orgulhosa de suas mais de trezentas páginas, de suas descobertas nas palavras, de tudo que não foi desenho no canal pago, de filmes agitados e de personagens esquizofrênicos ou de qualquer outra pasteurização entregue gratuitamente. Ali ela destilou mais um capítulo de sua identidade, de se entender gostar de leitura, ela não entendia como eu poderia gostar tanto de ler, se pelos filmes, pelos desenhos, dos quais também gosto, era muito mais fácil, mais rápido. Quando lhe disse que não tinha pressa, que queria aprender mais, dedicar mais, dar àquelas palavras a contribuição de minhas percepções, ela simplesmente disse não ter entendido. Agora, penso que lhe caíra a ficha do que é contribuir, dar algo que é seu às palavras, à leitura, a tudo.

Tenho aqui de agradecer a Ziraldo.

Eu ainda não sabia como despertar essa paixão nela. Sei que ela me vendo na leitura – e também na escrita – poderia ser um bom caminho. Mas sua eficácia levaria bem mais tempo para que alcançasse o meu desejo como pai. Lendo para ela, ela teria a minha leitura, o meu ritmo, seria, claro, mais um exemplo. Aqui em casa, uma vez ela dormiu em sua caminha, no seu quartinho, comigo lendo. No entanto, ela gostava de ouvir minha voz, era fácil passar das trinta páginas. Eu sonava, pois precisava dela dormindo, a canseira do cotidiano me embalava. Ela queria o pai. Era isso que entregava, esse pai que é também uma pelúcia para o descanso. Só que o desejo deste aqui sempre foi a independência dela. Não serei eterno e temos de preparar nossos filhos para o ocaso de nossos silêncios. Não significa que a quero longe. Significa que eu a quero para si. Agora, penso que consegui dar essa contribuição a ela com Ziraldo. Por isso, o meu agradecimento.

Ziraldo e seu Menino Maluquinho são intransponíveis.

Meu muito obrigado.

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Author

Márcio Calixto
Professor e escritor. Lançou em 2013 seu primeiro romance, A Árvore que Chora Milagres, pela editora Multifoco. Participou do grupo literário Bagatelas, responsável por uma revolução na internet na primeira década do século XXI, e das oficinas literárias de Antônio Torres na UERJ, com quem aprendeu a arte de “rabiscar papel”. Criou junto com amigos da faculdade o Trema Literatura e atualmente comanda o blog Pictorescos. Tem como prática cotidiana escrever uma página e ler dez. Pai de dois filhos, convicto morador do Rio de Janeiro, do bairro de Engenho de Dentro. Um típico suburbano. Mas em seu subúrbio encontrou o Rock e o Heavy Metal. Foi primeiro do desenho e agora é das palavras, com as quais gosta de pintar histórias.

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