Um profissional de ponta… a ponta

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O Ator e diretor Antonio Gonzalez tem uma longa carreira no teatro e na TV. Recentemente, encenou, ao lado de Stênio Garcia e Stella Freitas, a peça “O Último Lutador”.

Esteve na novela “Babilônia”, da Rede Globo, onde fez o papel do investigador da polícia Zé Henrique.  E ainda dirigiu, no ano passado, a série educativa “Ensinar e Aprender”, da MultiRio.

Este inquieto artista, que não gosta de ficar parado e está sempre correndo atrás de um trabalho que o realize, se espelha no pai, de 90 anos, professor de canto ainda em  atividade.

 

Como a arte surgiu na sua vida?

Meu pai, Eládio Perez Gonzalez,  é cantor e gosta muito de teatro e cinema. Além disso, é professor de canto e voz, e sempre deu aulas para atores. Então, desde criança, vivi nesse meio. E como sempre fui um garoto que gostava de “aparecer”, de chamar a atenção, foi quase que uma coisa “natural”.

 

Quais foram seus primeiros trabalhos?

Eu me formei na Unirio, em teatro, em 1983, com uma peça do autor gaúcho Qorpo Santo. Com o Infinita Metragem, grupo formado na faculdade,  viajei pelo sul do país por quatro meses. Uma turnê “Brancaleone”, na qual apresentamos a peça em todo tipo de palco, com muita e também com nenhuma estrutura. E isso me faz lembrar de que, num grupo de teatro, você tem que fazer de tudo e isso te dá não só a noção da importância de uma série de funções e  atividades que atuam em conjunto pra que um espetáculo aconteça, como um profundo respeito por todos os profissionais envolvidos na montagem de uma peça.

 

Apesar de ser mais conhecido pelas novelas, você fez muito mais teatro. Fale mais sobre isso…

Eu gostaria de ter feito muita novela, mas teatro sempre esteve mais à mão. Um trabalho leva a outro e assim foi. Isso foi bom porque tive a oportunidade de compartilhar o palco com profissionais com formação e experiências diversas, gente como Edney Giovenazzi, Osmar Prado, José Mayer, Benvindo Siqueira, Carvalhinho e Jorge Dória. Fui dirigido por Aderbal Freire filho, Domingos Oliveira e muitos outros, ou seja, foi uma ótima base.

Sobre atuar em novelas, é aquela coisa, alguém te reconhece e pensa: . ”Já vi esse babaca em algum lugar”. É bem possível, ator. Fiz peças de teatro,  dublagem, filmes, filmes pornôs…brincadeira, filme pornô eu só dublei. Mas, eu fiz muita novela. Nada muito importante, pequenas participações, fazia pontas, como se diz. Ator de ponta.

 

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Eládio Perez Gonzalez, o pai, o exemplo, a força

Ator de ponta?

É. Numa novela, em primeiro lugar, vem o protagonista, depois, numa escala decrescente, o antagonista, o coadjuvante, elenco de apoio, cachorros de raça, carros de luxo, papagaio com fala, aí vem o ator de ponta.

O ator de ponta faz aqueles personagens que falam muito, quer dizer, falam muito pelos olhos, mas com um conflito interior muito intenso, tais como garçons, enfermeiros, recepcionistas, vendedor, amigo do amigo, etc. São papeis geralmente pequenos, tão pequenos que uma vez eu fiz dois, na mesma novela. Eu perguntei pro assistente de direção: “Mas não vai dar pra notar? Pra que lado você andava? Pra lá? Então agora anda pra cá, ninguém vai perceber.”

Ator de ponta, como tem pouco texto, fala bem devagar pra ficar mais tempo em cena. Uma vez, eu gravava com o Mario Gomes e eu tinha que atirar nele com uma metralhadora. Tinha uma fala só. “Adeus, Guido Andolini!” Guido Andolini era o nome do personagem do Mário. Personagem de ator de ponta não tem nome, tem número: guarda 1, guarda 2, etc. O diretor deu o “gravando” e eu entrei, cheio de gás: “Aaaaaddeuuuusss Guuuiiiddooo Aaaaannnndoliiiiiniiii! e ratátátátá. Ratátátátá não era texto, era o som da metralhadora. O diretor disse ”corta”. “Fala isso mais depressa, ou melhor, não fala nada, já entra atirando, vamos ouvir só o barulho dos tiros,”ratátátátátátá”, é mais dramático. Perdi a fala pra uma metralhadora! (rs)

Pois é, ator de ponta. Fiz parte, durante muitos anos,  do elenco de ponta da Rede Globo.

 

Existe diferença entre atuar em novela, teatro e cinema? O que mais te emociona?

Acho que quem tem uma formação de teatro, está mais preparado pras outras duas, tv e cinema. Teatro tem métodos, exercícios, escolas de interpretação, te dá mais base. Mas a câmera tem suas particularidades e muita gente funciona maravilhosamente bem numa tela, fotografa bem, sabe se expressar apenas com o que a câmera mostra. São veículos diferentes. Orson Welles dizia que, no teatro, a gente vê o que o ator está sentindo e no cinema(ou tv) a gente vê o que o ator está pensando. Acho que é por aí.

 

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Gonzalez caracterizado como Sergius Saranov

Qual foi o personagem que você mais gostou de fazer? E Por quê?

Sergius Saranov, da peça “As Armas e o Homem”, de Bernard Shaw. Era um cara muito louco, tinha várias personalidades, era noivo da mocinha mas apaixonado pela empregada, muito divertido.

 

Ator, às vezes, enfrenta situações complicadas ou engraçadas. Você tem algum “causo” desses pra contar?

Na turnê que eu mencionei acima, tínhamos apresentações em Blumenau, mas foi em 1984, ano em que uma tempestade deixou Blumenau debaixo d’água. Ficamos ilhados no hotel. Imagina a bagunça, um grupo de teatro, as prostitutas da cidade e o time de futebol da mesma, todos “presos” pelas águas, sem poder sair do hotel e dividindo a comida e a água e outras coisas mais.

Teve um dia em que eu estava na janela olhando as ruas alagadas. Só se andava de barco pela cidade. O hotel era numa esquina, e vinham dois barquinhos, um de cada rua. Eu pensei, não é possível, eles não vão bater, mas não deu outra. Quando se viram, desviaram pro mesmo lado e bateram.

 

Tem algum profissional que fez diferença na sua longa carreira? Um diretor ou colega que tenha marcado você?

Meu pai está com 90 anos e continua trabalhando, dando aulas e cantando. Isso é admirável.

Uma vez, eu fazia uma participação numa novela cujo protagonista era o Ney Latorraca. A gravação era em São Paulo e a saída do hotel estava marcada para as seis da manhã. Eu cheguei dez minutos adiantado e fui o segundo a chegar. O primeiro foi o Ney Latorraca, protagonista da novela. Essas coisas a gente não esquece…

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Em ação na peça “O Último Lutador”

Como começou a dirigir?

Foi na MultiRio, empresa de produtos educativos da prefeitura do Rio de Janeiro. Meu amigo, Fabio Junqueira, me chamou pra trabalhar lá como assistente de direção do programa “Nós na Escola” e, depois, passei a dirigir o “Rio a Cidade”,  um programa de entrevistas ao vivo e diário, que era transmitido pela Band Rio. Isso lá por 2002, 2003.

Depois , novamente, o Fábio me levou pra TV Record, onde ralei sete anos como assistente de direção, mas foi a escola pra virar diretor.

Assistente de direção é que nem apêndice e amígdalas, todo mundo já ouviu falar, mas ninguém sabe pra que serve.

Uma das principais funções do assistente de direção é ser o primeiro a levar esporro do diretor quando alguma coisa não sai direito.  No início, sempre que eu chegava no set de gravação, todo mundo me tratava bem, eu sentia um clima de “ufa, ainda bem que você chegou”. Eu pensava, caramba, que baita confiança que eles têm em mim. Mas não, o alívio era porque tinha chegado o cara pra levar a culpa (rs).

Na Record, dirigi duas novelas, “Máscaras” e “Rebelde,” e foi das coisas que eu mais gostei de fazer na vida.

 

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Antonio fazendo o que mais gosta: dirigir

O fato de ser um ator experiente contribui para o seu trabalho de diretor?

Sem dúvida! Atores e atrizes são muito vaidosos e sensíveis. Saber como é estar do outro lado ajuda no trato com eles, ajuda a conduzir a cena com suavidade e segurança pro lugar que o diretor quer.

 

Que dicas você daria para um ator iniciante?

Faça muito teatro, sempre que puder e, se possível, viaje fazendo teatro, conheça muitas plateias.

Mas também acho legal ter um plano B pra ganhar a vida. Viver de arte no Brasil é complicado, é bom ter alguma segurança, seja uma carreira acadêmica ou outra atividade.

 

Quais são seus planos para o futuro?                   

Eu dirigi um documentário sobre alguns grupos de teatro, chamado “Merda ou como enganar os deuses”. Não me empenhei na divulgação do filme, um pouco por falta de tempo, já estava fazendo muitas outras coisas, o tal plano B.

Mas, agora, eu quero investir numa pós-produção mais caprichada pro filme. Me aguardem!

 

 

Facebook:

“Merda ou como enganar os deuses”

https://www.facebook.com/MERDA-ou-como-enganar-os-deuses-399932146864228/

“O Último Lutador”

https://www.facebook.com/oultimolutador/?fref=ts

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Author

Patricia Costa
Editora-chefe do ArteCult.com Jornalista, roteirista, mãe, poeta, editora, escrivinhadora, atriz. Mulher. Sou filha da PUC-Rio, formada em Comunicação Social com habilitação em jornalismo. Trabalhei em revistas sobre meio ambiente e educação. Fui parar na TV na produção do Globo Ecologia e logo estava participando da criação do Canal Futura, onde fiquei por mais de 7 anos. Trabalho na MultiRio, uma produtora de multimeios educativos da prefeitura do Rio de Janeiro, há 10 anos, atuando como roteirista e editora. Colaborei para o site Opinião e Notícia por 2 anos escrevendo sobre Educação, Cultura, Cidadania e Meio Ambiente: opiniaoenoticia.com.br Escrevi também para a Revista do Senac Educação Ambiental por cinco anos. Me formei em teatro pelas mãos de Bia Lessa. Fui dirigida por Alberto Renault e Roberto Bontempo. Conheci muita gente talentosa. Aprendi com muita gente boa. Fiz cursos livres de canto, de dança flamenca, de locução de rádio e de roteiro para TV e cinema. Sou uma leitora contumaz. E ótima ouvinte. Gosto de observar a vida e de dar pitaco em alguns assuntos os mais variados. Mãe de dois adolescentes, continuo aprendendo sobre a vida todos os dias. O humano me encanta. E me aterroriza também!