Quando as palavras se escrevem…

2 - IMG_20160520_192217551 3Susana Fuentes é o que podemos chamar de multiartista. Escritora e atriz, também tradutora, musicista, mímica, dançarina, acadêmica, trapezista… Ufa!!!

Por pura necessidade (de espaço – ou da falta dele!), a nossa conversa explorou mais a sua verve literária. Susana estreou oficialmente no mundo das letras com o conto Sumaúma e reco-reco, publicado na Revista Ficções (7Letras, 2004).

Formada em Letras, já fez Mestrado e Doutorado em Literatura Comparada e agora terminou o Pós-Doutorado, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

É autora do livro de contos Escola de Gigantes, do romance Luzia – finalista do Prêmio São Paulo de Literatura em 2012 -, e do livro infantojuvenil As Aventuras do Gato Olavo. Em 2016, voltou aos contos com o lançamento de Anotações de Berlim. Escreveu ainda a peça teatral Prelúdios: em quatro caixas de lembranças e uma canção de amor desfeito, um monólogo na qual também participa como atriz.

Nascida no Rio de Janeiro, Susana é cidadã do mundo; viaja meio planeta para falar de literatura.

A última viagem foi para Paris, em março, onde lançou a versão francesa do seu infantojuvenil, Olavo, Le Chat, na Printemps Littéraire Brésilien, a Primavera Literária Brasileira, na Universidade de Sorbonne.

Em seu trajeto com os livros, na escrita, e no teatro, na arte de atuar, ela afirma que sempre esteve presente a pesquisa em Letras/Literatura desenvolvida ao longo dos anos de UERJ. Para Susana, a formação em dança, o trabalho com o teatro gestual e a literatura, assim como o encontro com o novo circo e a música a impulsionaram nesse movimento de construir uma linguagem própria, de reunir as formas de expressão que lhe são íntimas.

 

Como foi sua experiência com o teatro?

A minha irmã, Daniela Fuentes, e eu, fazíamos uma pesquisa sobre Isadora Duncan, e procurávamos reunir novas linguagens. Ela criou e produziu no Parque Guinle e no SESC da Tijuca o Encontro para Integração das Artes. Nessa ocasião, conheci a Cia. de Teatro Gestual Os Mimos, e com eles atuei na peça De Olho no Escuro, criada a partir do livro de Daniela Chindler. Eu me lembro de que escrevia sobre cada um de nossos esquetes para compreender melhor a cena. Também foi marcante o trabalho junto à Cia. Triângulo de Teatro de Bonecos, onde o jogo do ator incluía dar vida a bonecos e formas.  Já na dança, pediam para usarem meus textos em algumas de nossas apresentações, como no caso da dança Israeli com o grupo Davkah, do qual participei ao lado de grandes amigas, e também colegas no Ballet Dalal Achcar.

A rua também foi uma escola, desde os encontros no Parque Guinle até experiências de trabalhos solos. E também com a companhia Mímica em Trânsito, de Toninho Lôbo e Beth Zalcman, em apresentações em vários bairros do Rio.

E no encontro com o novo circo, em oficinas com Luiz Carlos Vasconcelos, Marcio Libar, Teatro de Anônimo, e oficinas e atuações junto ao Gigantes da Lira de Yeda Dantas. A partir de um movimento de ocupação artística das praças, criei, com Paulo Proença, o circo Pio Onzinho, no Jardim Botânico, que reuniu, durante três anos, artistas de várias áreas na Praça Pio XI. Um circo sem lona, um espetáculo a céu aberto.

8 - Susana Fuentes em Prelude NY

Susana encena Prelúdios em Nova Iorque (2012)

Fiz a preparação mímica do esquete Parador Bangu, com direção de Yeda Dantas, selecionado para participar do Circuito Brasileiro de Esquetes e Performances.

Foi depois disso que fui convidada a participar de uma montagem, pela Cia. de Teatro Brasileiro, de O Patinho Feio, numa versão contemporânea do conto de Hans Christian Andersen dirigida por Marcus Vinícius Faustini.  Em seguida, também sob a direção de Faustini, encenamos Hoje é dia de Rock, de José Vicente…

Escrevi Prelúdios, em quatro caixas de lembranças e uma canção de amor desfeito, num diálogo com as diferentes formas de expressão que fazem parte do meu caminho. Com direção de Eunice Gutman, a peça teatral tomou seu rumo.  Selecionada para participar do festival de teatro The New York International Fringe Festival em 2012, eu a reescrevi em inglês. Estar entre peças de vários países e vê-la incluída entre as três melhores pela crítica local são um estímulo para descobrir a força das palavras, habitar outras casas, novas línguas.

A experiência cênica, o encontro com o espectador, a manipulação de objetos e a construção de formas que ganham vida ou compõem o cenário em movimento no palco – tudo isso faz parte de minha vivência. Saber ver e escutar os objetos, as paisagens, as pessoas.

 

Essa vivência contribuiu para formar sua linha artística, tão sensível, introspectiva e rica?

O estar em cena ou na página, um alimenta o outro. Tchékhov, confrontado por seu editor para escolher entre medicina ou literatura, respondeu que não era uma questão de oposições, ou perdas, mas de somas. De ganho para os dois lados que conversam entre si. Deixar que as cores conversem umas com as outras, como disse Rilke de um quadro de Cézanne. Eu me lembro que podia ficar horas diante da montanha em frente à minha casa, até que nela aparecessem todas as cores. Também estar em cena é estar no tempo presente, escutar o outro. Perceber o corpo sob a ação da gravidade e em oposição a ela. Um gesto como o de apontar não terminará na ponta do dedo, mas bem mais adiante. Ou o caminho numa direção tal conterá a força que impele à direção oposta…

Desde cedo o palco é minha casa. A madeira, a coxia, as luzes. Trago sensações da cena e dos bastidores, a maquiagem diante dos espelhos e lâmpadas no camarim imenso do Teatro Municipal, de quando participei de O Quebra-Nozes com direção da Dalal Achcar.  Os ensaios, o sentido de responsabilidade, a interpretação na dança.  Foi o meu primeiro trabalho, aos nove anos. Meu pai ia me buscar no Teatro quando o espetáculo terminava, à noite.

 

O que levou você a começar a escrever?

Sempre tive uma relação forte com as palavras que surgem no caderno. Depois de algum momento, elas começam a se escrever.

Quando criança gostava muito de ler. Alguns livros, eu os lia em voz alta, impulsionada pelo ritmo do texto, e percebo aí o desejo de conviver com as palavras, conhecê-las em volume e intensidade. Aos cinco, seis anos, ganhei um diário, mas não queria usá-lo como diário… comecei a escrever poemas, algumas linhas simples que ainda guardo, e há nelas uma semelhança com algo que hoje ainda está presente.

Ler sempre me fez escrever. E também certas coisas que eu não teria como expressar de outra forma.

 

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Você também segue firme na carreira acadêmica. Mestrado, Doutorado e agora Pós-Doutorado. Como esses estudos da Literatura Brasileira influenciam a sua obra?

A produção literária em sua relação com a cidade, a paisagem, a infância, no caminho entre lugares, no exercício de narrativas que se deixam atravessar pela experiência da alteridade. Foi isso que busquei nos estudos de Literatura e no meu Pós-Doutorado, que só foi possível graças à importante supervisão da professora Maria Aparecida Andrade Salgueiro e ao  apoio fundamental da FAPERJ. Acredito que a experiência acumulada durante essa trajetória abre caminhos para a continuidade de uma produção científica, artística e cultural.

Em minha pesquisa de Pós-Doutorado, o projeto incluiu pesquisa de imagens, criação de oficinas literárias, o que representou uma construção dos meus caminhos nas artes, na vida e na universidade.

 

O que a inspirou a escrever Luzia?

A ideia de lembranças futuras, memória que se escreve no presente. Ao mesmo tempo, a menina, a mulher em situações que constrangem sua liberdade.  Correr, sair por aí sozinha, tudo o que à menina é cerceado. E quando comecei Luzia, percebi a necessidade de conviver com aquele texto e com Luzia. Luzia – entre identidades possíveis. Ligar, recuperar fragmentos. Arriscar-se. Tornar-se viajante. Caminhar como uma forma de reencontro ou para deixar aparecer esse outro – essa outra que se reescreve no presente. No romance, a narradora se dirige à personagem e diz algo como Fique tranquila, Luzia, não sou você olhando para trás. Escrevo para você seguir em frente.

O romance também tem referências ao circo, ao cinema e à música. Greta Garbo, em Rainha Cristina, partindo de navio, ou as impressões de Fellini em sua infância sobre o espaço ocupado pelo circo diante de sua janela.

 

Como se sentiu ao ter o livro concorrendo a um prêmio Literário em 2012?

Lembro-me de que saí de um ensaio na Casa de Cultura Laura Alvim e passei na editora 7Letras, que já tinha se mudado para Ipanema.

Lá, encontrei uma das responsáveis da equipe editorial, que me deu os parabéns… Acabavam de anunciar os dez finalistas do Prêmio São Paulo de Literatura, e meu romance Luzia estava entre eles. Foi uma alegria imensa. Como parte do programa “Encontro com escritores finalistas” do Prêmio São Paulo de Literatura 2012, viajamos pelo interior de São Paulo, para falar de nossos livros.

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Participei da mesa-redonda com Luiz Ruffato e Ana Mariano no auditório do Espaço Cultural “Cidade do Livro”, em Lençóis Paulista, pela SP Leituras. Isso já foi um prêmio.

Também quando Escola de Gigantes foi selecionado pelo programa “Rio, uma cidade de leitores”, em novembro de 2010, para a Biblioteca do Professor, da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro, eu estava dando aula na UERJ quando recebi a notícia. Cerca de 16 mil exemplares foram distribuídos às escolas. O melhor, quando algo assim acontece, é que seus livros chegam a muitos novos leitores, e você tem um retorno de suas impressões.

 

Após Luzia, você escreveu – e ilustrou – um livro infantil, sobre o gato Olavo. O que a levou para esse gênero?

Acabo de voltar da França onde participei do Livre Paris – Salão do Livro de Paris 2016, e da  terceira edição da Primavera Literária Brasileira. O festival, criado por Leonardo Tonus na Sorbonne, dessa vez homenageou a literatura infantojuvenil. Na programação da Primavera, apresentei o meu livro Olavo, le chat ao lado do meu livro de contos Escola de Gigantes e de meu romance Luzia, em mesas sobre a literatura contemporânea brasileira, escrita e artes.

Também pude visitar uma escola em Malakoff e tive uma bela surpresa ao ver que a professora havia trabalhado com a turma o texto e as imagens. As crianças inventaram respostas à pergunta “onde está o gato”, dançaram a dança do ronrom…  Foi maravilhoso ler o livro com as crianças. E trabalhar com elas a relação entre texto, fotografias e os desenhos.

Olavo, le chat é o primeiro de uma série de três episódios de As Aventuras do gato Olavo nas duas línguas, francês e português. Esse livro, através do jogo de palavras, da fotografia e do desenho, é um convite a aguçar os sentidos e a perceber, através do olhar do gato que se esconde, a vida e os sons da casa.  Os ruídos, o silêncio, o brilho da chuva, a claridade, o escuro, as cores. Os movimentos do gato. O gato se esconde, e ali começa um jogo.

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As fotos e o texto surgiram a partir desse meu espanto no convívio diário com o meu gato e sua personalidade, sua curiosidade, suas reações, o jogo do olhar, essa conversa que poderia durar uma vida inteira.

Em Paris, tivemos o lançamento da edição em francês que também foi apresentada aqui na Maison de France, na noite de abertura do Mon Petit Festival, onde participei como autora convidada da sessão de autógrafos. Em breve haverá lançamento aqui no Rio e ele poderá ser comprado nas livrarias e pela internet.

 

Você aprendeu russo, alemão, francês… esse contato com outros idiomas tem algum impacto no seu trabalho?

Gosto de ver a paisagem escrita em outra língua, como digo em Anotações de Berlim, meu minilivro lançado em 2016 pela coleção Megamíni da 7Letras. Ou de perceber os espaços da cidade, como no conto Meus olhos de andar em Paris, que escrevi para a antologia Olhar Paris, organizada por Leonardo Tonus ­ (Editora Nós, 2016). As línguas, as culturas, as diferentes cidades – o que me faz escrever sobre elas é percorrer as ruas, sua atmosfera conforme se apresenta, sua luz, seus habitantes. Num conto, num trecho do romance, de repente algo novo se forma. Detalhes de uma paisagem que só se revela porque há um olhar que procura. Na reescrita de si e dos espaços que habitamos – as cidades, as esquinas, as passagens.

 

Quais são os desafios do trabalho de tradução?

Traduzir, transportar… Procuro o ritmo e a força em qualquer língua.  Tradução entre culturas, memórias, afetos. Posso evocar uma frase de Luzia: “no azul onde um falou neve, o outro falou mar”. Tradução entre azuis, entre as paisagens da memória, a paisagem de partida e a de chegada informando uma à outra… Jorge Wanderley, meu professor na UERJ, disse uma vez algo que nunca esqueci: o sabiá que canta aqui tem que cantar lá também.

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Feliz em Paris no lançamento da versão em francês do seu livro infantojuvenil As Aventuras do gato Olavo

 

Além de tudo isso, você ainda é musicista. Toca flauta, acordeom…

Sim, os dois instrumentos estão presentes na peça Prelúdios. Eu falo das lembranças dos tempos de circo com Ramón, um amor “que se fué”. O acordeom traz as memórias do trapézio, com tema inspirado em cena de Wim Wenders, os acordes graves evocando o balanço da trapezista em sua evolução.

No novo circo, aprendi o jogo a partir do mais simples. E por isso uso temas para a flauta para jogar com a plateia, que me acompanha num “tambor” improvisado com uma caixa de chá e uma colher de pau.

Estudei piano e flauta transversa. Em casa, a minha mãe tocava piano e colecionava discos e fitas com canções de várias partes do mundo. Eu tinha dois anos e me interessei por uma gravação deixada por ela ao meu alcance.  Quando, depois, ela apertou o play, notou que alguém gravara por cima, porque falhava o som, entrava o silêncio e, de repente, ouviu: obrigada, amigo, tchau! Era eu que, em seguida, lançava três beijinhos. Eu havia me encantado com Noites de Moscou e conversava com o cantor russo.

A música tem um espaço especial na minha vida e na minha experiência com o teatro. Minhas composições participaram da trilha sonora de alguns filmes de Eunice Gutman e da trilha da peça Hoje é Dia de Rock, dirigida por Marcus Faustini, onde trabalhei como atriz.

Em O Patinho Feio, dirigido por Faustini, eu dançava no tecido – na acrobacia aérea – a música que eu mesma tinha composto para o acordeom.

 

E quais são seus próximos projetos?

Em breve voltarei em cartaz com Prelúdios, em quatro caixas de lembranças e uma canção de amor desfeito. Atualmente, estou escrevendo um romance, mais à frente vou falar dele. Aí a gente se encontra de novo…

 

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Author

Patricia Costa
Editora-chefe do ArteCult.com Jornalista, roteirista, mãe, poeta, editora, escrivinhadora, atriz. Mulher. Sou filha da PUC-Rio, formada em Comunicação Social com habilitação em jornalismo. Trabalhei em revistas sobre meio ambiente e educação. Fui parar na TV na produção do Globo Ecologia e logo estava participando da criação do Canal Futura, onde fiquei por mais de 7 anos. Trabalho na MultiRio, uma produtora de multimeios educativos da prefeitura do Rio de Janeiro, há 10 anos, atuando como roteirista e editora. Colaborei para o site Opinião e Notícia por 2 anos escrevendo sobre Educação, Cultura, Cidadania e Meio Ambiente: opiniaoenoticia.com.br Escrevi também para a Revista do Senac Educação Ambiental por cinco anos. Me formei em teatro pelas mãos de Bia Lessa. Fui dirigida por Alberto Renault e Roberto Bontempo. Conheci muita gente talentosa. Aprendi com muita gente boa. Fiz cursos livres de canto, de dança flamenca, de locução de rádio e de roteiro para TV e cinema. Sou uma leitora contumaz. E ótima ouvinte. Gosto de observar a vida e de dar pitaco em alguns assuntos os mais variados. Mãe de dois adolescentes, continuo aprendendo sobre a vida todos os dias. O humano me encanta. E me aterroriza também!